VASTO MUNDO: A “INVISIBILIDADE” COMO ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA

 

Apesar do estigma do “isolamento” freqüentemente estar associado àqueles aos quais
a sociedade ocidental convencionou chamar de “índios”, são vários os povos, em todos os
continentes, que ao longo da história adotaram o afastamento das sociedades majoritárias
como tentativa de autonomia, optando pela conservação de suas culturas como estratégia de
resistência e sobrevivência.Em quase todas estas situações, sociedades nacionais e governos
têm reprimido e destituído violentamente estes povos do direito de permanecerem senhores
de suas vidas, seus destinos e sua maneira de ser. A repressão à autonomia e cultura destes
povos, inclusive na atualidade, é uma grave violação aos direitos humanos, à diversidade
étnica e cultural e ao patrimônio material e imaterial da Humanidade.

Assim como os isolados da América do Sul, inúmeros povos, remanescentes de culturas ancestrais, persistem em resistência surda por sua sobrevivência física e cultural num planeta cada vez mais “globalizado”. Como os grupos indígenas autônomos na Amazônia e Chaco
Paraguaio
(onde frações do povo Ayoreo Totobiegosode resistem nas últimas manchas
florestais, tremendamente pressionados por latifundiários e acossados por missões religiosas).
povos como os Jarawa (Ilhas Andaman, Índia), frações dos Bosquímanos
(Kalahari, África) e dos Pigmeus Bayele (Fronteira da Guiné Equatorial e Camarões),
parcelas do povo Dong (Sudoeste da China) e numerosas tribos da Papua Nova Guiné (Polinésia),também envidam esforços imensos para subsistirem como são,
rejeitando a dominação e, por vezes, o convívio com as sociedades envolventes.

Neste sentido, a opção pelo “isolamento” geográfico - quando existente e se respeitada – possibilitaria a continuidade destas culturas.O desrespeito a esta opção de autonomia, principalmente em função da expansão agressiva de fronteiras das sociedades mercantilistas, além de programas de governo
claramente discriminatórios, de fundo etnocida ou “integracionistas”, têm condenado
inúmeras culturas vivas ao extermínio.

Os métodos de extermínio físico e cultural são vários, desde o morticínio violento praticado por grupos economicamente interessados nas terras habitadas por estes povos (genocídio freqüentemente brindado com a impunidade ou mesmo o patrocínio de governos racistas, autoritários e/ou corruptos) e destruição de seus ecossistemas, até pressões psicológicas coletivas insuportáveis: através da discriminação pública, da imposição de programas“educativos” que anulem os valores próprios destas culturas, da “evangelização” de missões confessionais que impõe modelos religiosos frontalmente opostos à cosmologia e culturas tradicionais destes povos, entre outros.

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