N O T Í C I A S      Z O’É :

 

DEZEMBRO 2010:

“Os Zo’é não vivem uma redoma”- o antropólogo Ruben Caixeta opina:         

O texto de Rosa é muito lúcido e esclarecedor sobre a situação atual dos Zo’é. Do ponto de vista antropológico, é uma luz sobre o conceito de nomadismo e sobre o que significa uma sociedade – organizada em torno da caça e da pesca, e da pequena agricultura – ter que, contra o seu próprio movimento interno e suas próprias razões cosmológicas e sociológicas, se deslocar para fora de seu mundo. Não entendo quando dizem que o texto de Rosa é demagógico: ainda que pequeno, no contexto que demanda o espaço da bloguesfera, é uma das melhores análises que já li até o momento sobre o recente acontecimento entre os Zo’é. A situação dos Zo’é, sua procura de contato com o mundo exterior, não poderá ser entendida sem uma análise consistente do ponto de vista antropológico, sem ouvir com atenção os próprios Zo’é. Não é uma simples reportagem de uma equipe de TV que vai trazer qualquer entendimento sobre o caso, o máximo que pode trazer e ampliar, é o preconceito contra esse povo indígena. Pelo que li do texto da Rosa, ela e outros indigenistas que trabalham com os Zo’é não militam para que estes índios fiquem fechados no seu “mundo” (mesmo porque o mundo do povo Tupi e do Povo Karib é um mundo aberto para o exterior, para aquilo que vem de fora), mas, este contato e esta relação com o mundo de fora (sobretudo sabendo que neste mundo de fora, que é sobretudo o nosso, o ocidental, há muita gente malandra, muita gente que só interessa na “alma” ou no “corpo” do índio – veja a longa história da conquista européia, da evangelização, da escravização dos índios; isso começou há mais de quinhentos anos, e, ainda continua), mas este contato deverá ser mediado por um trabalho indigenista e antropológico sério, feito junto com os próprios Zo’é; este contato deles com o exterior hoje em dia não vai ser feito pela força da “palavra” única do cristianismo, ou pela força e pelo poder dos colonos, os tempos, felizmente, são outros, há muita gente, no Brasil e fora daqui, apoiando o trabalho sério que vem sendo feito atualmente com e pelos os Zo’é. Isto tudo não quer dizer que tudo está certo, precisamos refletir criticamente sobre este trabalho, no sentido de melhorá-lo, aperfeiçoá-lo, e isso deve ser feito por aqueles que realmente querem ouvir os Zo’é, e fazer deles os protagonistas deste encontro com o mundo exterior.

Ruben Caixeta de Queiroz é professor de antropologia da UFMG, coordenador dos GT's de identificação e delimitação das T.Is. Trombetas/Mapuera e Nhamundá-Mapuera (povos Hixkaryana, Kaxuyana, Waiwai, Katuena, Mawayana, Xereu,  Tunayana), localizadas no entorno da T.I.Zo’é. É autor, entre outros, dos   livros “Histórias de Mawary”(2009) e “A saga de Ewká: epidemias e evangelização entre os Waiwai", in: WRIGHT, R. (Org.). Transformando os Deuses: os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil, Campinas : Unicamp, 1999. Contraponto publicado em jesocarneiro.blogspot

 

"OS ZO'É NÃO VIVEM NUMA REDOMA":

Resposta da indigenista Rosa Cartagenes ao jornalista Jeso Carneiro, a respeito de reportagem da TV Atalaia, de Oriximiná(PA), divulgada sob o título "Funai Abandona os Índios Zo'é":

"Decidi me pronunciar unicamente porque citada, assim como o AMAZOÉ-Apoio Mobilizado ao Povo Zo’é e Outras Etnias - associação civil a qual coordeno –  de modo descontextualizado e desinformado aqui em sua “esfera”, em postagens anteriores. No entanto, reitero  que minhas considerações são pessoais, enquanto cidadã e indigenista, não representando eventuais posições da FUNAI - órgão oficial com o qual colaboro, mas do qual não faço parte.
Reportando-me à informação oficial, esclareço que o número de membros do povo Zo’é que estiveram recentemente nos Campos Gerais do Erepecurú foi 96 indivíduos, e não 139 – este último “dado”,  divulgado pelos referidos “castanheiros”  envolvidos.
Gostaria de colocar como premissa inicial o fato, antropologicamente bastante estudado, que as sociedades Tupí são por natureza “sociedades andarilhas” - prática social que alguns chamam de “nomadismo”, “perambulação”, “deambulação” entre  vários outros rótulos (rotular é  uma obsessão da nossa sociedade). Tal caminhar constante apresenta vários contextos:  sociais, econômicos,  cosmológicos, mas certamente relacionados ao perfil de auto-sustentação dos povos chamados “caçadores-coletores”. E os Zo’é são caçadores-coletores-agricultores, de cultura Tupí-Guaraní.  Desnecessário discorrer aqui sobre a importância desta auto-sustentação, já que a autonomia produtivo-econômica  de qualquer grupamento humano  é a base de sua independência em muitos aspectos.  Quem conhece ao vivo a eficiência, a tecnologia primorosa e a justiça ecológica de um arco e flecha Tupí jamais questionaria o desnecessário e danoso de uma arma-de-fogo “civilizada” num contexto de vida coletiva auto-sustentável.
Afirmo, alicerçada num convívio de muitos anos, que os Zo’é sempre foram livres em suas andanças, e mesmo  estimulados  a estas:  isto  tem sido fator primordial na recomposição de sua de vitalidade cultural e retomada de suas áreas de ocupação geográfica tradicionais. É em seu livre caminhar e abrir novos caminhos que ocorre a plenitude da vida Zo’é - caçadas, pescarias, namoros, casamentos, alianças , evitações, vida cerimonial. Ao contrário, na época imediatamente após o “contato” promovido pela MNTB (Missão Novas Tribos do Brasil, anos 80), os Zo’é foram progressivamente sedentarizados no entorno da  base da referida Missão, atraídos pelas benesses materiais imediatas ali disponibilizadas - roupas, panelas , facas e objetos afins -  justamente para mantê-los  agregados à influência missionária. Não é uma dedução: é histórico comprovável, e tratava-se de prática política usual de todas as “agências” (inclusive governamentais) que  objetivavam o “contato” com etnias em isolamento.  
Sedentarizados e congregados, “coisa” totalmente fora de seus  padrões tradicionais de ocupação e dispersão  territorial , ocorreu a concentração de incidência malárica, tornando-a endêmica. Não se trata de uma acusação: é  comportamento epidemiológico cientificamente estabelecido  e comprovado em relação à malária e outras endemias. Concentração demográfica é um dos fatores preponderantes para o ciclo de infecção-contágio-propagação de patologias. Adensamento de contato físico e contigüidade geográfica promovem difusão de doenças. Em doenças transmitidas por  vetores (no caso, o carapanã), concentração populacional também atrai concentração vetorial : gente= fonte alimentar do transmissor. E soluções dependem de boas práticas em vigilância sanitária, rigorosas e eficazes, bastante dificultadas num contexto de aldeia e floresta.

O discurso dos Zo’é como “prisioneiros” tem sido tendenciosamente baseado  em perspectivas proselitistas – à medida que religiosos ( de quaisquer credos) são impedidos formalmente pela FUNAI de adentrar a territórios indígenas de povos ou frações consideradas isoladas ou de recente contato. Missionários  repetem exaustivamente na mídia que os Zo’é foram “expostos ao mundo” e “isolados do acesso ao evangelho”. E esse eterno rótulo de “isolados” para os Zo’é é de uma improcedência sociológica abissal: como se alguma sociedade humana ficasse cristalizada em tempos ou geografias... No início de 2010, a FUNAI redimensionou a CGIIRC – Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato, reiterando o reconhecimento público de que as sociedades indígenas, como todas as sociedades humanas, estão sempre e em constante movimento, e as transições e transformações em curso no seio delas não cabem meramente num rótulo de “Isolados”. Há vários anos os Zo’é são reconhecidos juridicamente como “sociedade indígena de contato recente”. E isto é uma superação jurídica fantástica, pois antes da Constituição atual, a única legislação a respeito - o Estatuto do Índio - só “permitia” 03 categorizações para os “índios” (“índio” também é um rótulo, e inventado por nós): “isolados”, “em vias de integração” e “integrados”.
Qualquer pessoa com mínima  sensibilidade social sabe que no Brasil não existe nenhum povo indígena realmente “integrado”, mas existem muitíssimos povos e indivíduos indígenas em processo de franca “desintegração”! “Integração à comunhão nacional” foi um sonho positivista dos tempos do General Rondon, baseado numa perspectiva evolucionista que, pedagogicamente, povos “selvagens” iriam se “civilizando” até tornarem-se bons e pacatos trabalhadores brasileiros. Numa sociedade discriminatória e espoliadora, a única possibilidade de integração efetiva do índio é padronizá-lo nos moldes ocidentais de tal forma que destrua toda sua essência cultural e humana diversa. E entregá-lo às camadas mais desvalidas e vilipendiadas da população, aquelas que as estatísticas estabelecem como “abaixo da linha da pobreza”. Um exemplo cabal são os povos Guaraní (de mesma família lingüístico-cultural que os Zo’é), os quais, mesmo após 500 anos de relacionamento com a sociedade nacional, mesmo vestidos, alfabetizados, “educados” e supostamente “integrados ao mercado de trabalho”, continuam massacrados pela jagunçada do latifúndio, escravizados e sob uma violência de direitos tamanha que têm sido classificados pela Comissão de Direitos Humanos da ONU como “sob ameaça permanente de genocídio”*. Há comunidades Guarani com até 10 igrejas de “seitas evangélicas” diferentes, além da igreja católica, “loteando” a influência religiosa em meio a sua miséria. É o mais alto índice de suicídio proporcional entre todas as populações do planeta – e os suicídios acontecem majoritariamente entre adolescentes e jovens.
Certamente os Zo’é nunca foram impedidos de saírem de seu território: são homens livres! Lembremos, inclusive, que quem inventou que “seu território” dispõe dos  limites físicos ora estabelecidos - no interflúvio dos rios Cuminapanema, Erepecurú e Urucuriana, municípios de Óbidos e Alenquer-  também fomos “nós”, ocidentais, e não eles. Pelo menos desde o séc.XVIII há registros etnográficos de intenso trânsito indígena nos chamados Campos Gerais do Erepecurú.  Os “brancos” se estabeleceram por lá bem depois disto.

O conceito geográfico-cosmológico dos Zo’é a respeito de limites físicos é muito interessante: o mundo tem “bordas”, mas estas bordas se ampliam na medida em que forem conhecidas...É um belíssimo conceito de “universo em expansão” que seria admirado por qualquer físico e  astrônomo  pensante! As sociedades Tupí trazem em si esta maravilhosa concepção humana de desejo e amplitude permanente de conhecimento.
Na última década, sobretudo em função da acelerada ocupação e expansão de modelos econômicos predatórios no noroeste do Pará ( principalmente monocultura da soja e  agropecuária extensiva), os Zo’é têm sido, solidariamente,  aconselhados a não ultrapassarem as “bordas fixas” que inventamos para eles. O motivo é evidente: fora de “seu território”,  ficam muito mais expostos a  inúmeros riscos - do contágio de doenças graves para as quais ainda não desenvolveram imunidade,  à exploração de mercenários e aventureiros que costumam integrar as frentes de expansão em território amazônico: garimpeiros, madeireiros, “gateiros”, extrativistas ilegais, traficantes e, inclusive, fanáticos religiosos – alguns dos quais capazes de qualquer tipo de estratégia ou aliança escusa para propagarem sua “fé”. Tradicionalmente afáveis e cordiais, os Zo’é “normalmente” ( mas isto está mudando) conseguem ser simpáticos com qualquer pessoa que lhes apareça no caminho.

Fotos gentilmente cedidas para uso cultural pelo autor, Sebastião Salgado,à associação AMAZOÉ. O mestre da fotografia esteve na Terra Indígena Zo'é em 2009, devidamente autorizado pela FUNAI, ocasião na qual pode fotografar e a oportunidade de desfrutar do convívio natural e intenso com os Zo'é, em acampamentos de caça e pesca organizados pelo povo.

 

SETEMBRO 2010:

..NAS MANHÃS DE SETEMBRO...

Tendo por testemunhas o sol, o céu e as águas plácidas do Tapajós, na manhã de 25 de setembro  casaram-se o médico  Erik Leonardo Jennings Simões e a fonoaudióloga Cristiane Figarella de Oliveira.  Neurocirurgião , ambientalista , esportista, o Dr. Erik foi um dos primeiros médicos a incorporar voluntariamente a equipe que atende ao povo Zo’é, sendo atualmente coordenador de Saúde da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema pela Fundação Nacional de Saúde/FUNASA.


A cerimônia,  marcada pelo encantamento da amizade e carinho de familiares e amigos em torno do jovem casal  e  celebrizada pela natureza magnífica do Pajuçara  foi igualmente embalada pela magia das cordas do mestre Sebastião Tapajós e o canto contagiante de Jana Figarella, entre outros músicos da terra.
A equipe da Frente Cuminapanema e do AMAZOÉ desejam ao nosso "Eco-Dotô" e à bela cabocla Cristiane  paz e prosperidade, e as merecidas bênçãos da Mãe Natureza e de todos os
deuses!

 

 

"EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA MOSTRA UM DOS ÚLTIMOS GRUPOS INDÍGENAS A ENTRAR EM CONTATO COM A SOCIEDADE BRASILEIRA"

"O cotidiano do mais recente grupo de indígenas tupi a entrar em contato com a sociedade brasileira capturado pelas lentes do fotógrafo francês Serge Guiraud. É o que mostra a mais nova exposição fotográfica Zo’é - Os homens da última fronteira.
O fotógrafo Serge Guiraud, autor do registro do cotidiano dos Zó’é, fundou a Jabiru Prod, associação cultural que se especializa na Bacia Amazônica e seus povos. O pesquisador também produziu um documentário sobre o cotidiano da tribo, extremamente frágil e cercada de empecilhos à sua sobrevivência na forma original. Do lado de cá do Brasil, sabemos muito pouco das condições em que algumas tribos isoladas vivem na Floresta Amazônica. De acordo com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), há 45 grupos esquecidos por muito tempo ou que tiveram apenas contatos esporádicos com a nossa sociedade. Esse foi o caso dos Zo'é, que se refugiaram do contato com o homem branco e com outras tribos indígenas, ambos considerados como inimigos deste povo. Entraram para a história como um dos últimos povos indígenas intactos da Amazônia, ocupando terrenos pouco acessíveis no norte do Pará, entre os rios Cumipanema e Erepecuru." ( da Redação do "Oxente-Salvador")
Serviço:
O que: Exposição fotográfica Zo'e – Os homens da última fronteira
Quando: até o dia 3 de setembro de 2010
Horário: das 8 às 21h de segunda a sexta-feira, e das 8 às 17h, aos sábados
Onde: Aliança Francesa - Avenida Sete de Setembro, n°401, Ladeira da Barra
Quanto: Gratuito

Notícia cultural em www.oxentesalvador.com.br

Jovem Zo'é confecciona tiara/S.GuiraudJovem Zo'é fabricando tiara masculina - foto Serge Guiraud - Arquivo FPEC/AMAZOÉ

 

MAIO 2010

SAÚDE ZO'É NA ONU

Promovida pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas e pela FUNAI-Ministério da Justiça/Brasil, aconteceu nos dias 24 e 25 de maio passado, em Brasília, a “Reunião Técnica de Consulta Sobre as Diretrizes de Proteção para os Povos Indígenas Isolados e em Contato Inicial da Amazônia e Grande Chaco”. Trata-se de evento de agenda dos trabalhos da ONU relacionados ao “Programa de Ação para o Segundo Decênio Internacional dos Povos Indígenas no Mundo”, desencadeado a partir de 2006, com reuniões realizadas nos países amazônicos onde há relatos da presença de grupos indígenas não-contatados (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Perú, Venezuela) e Paraguai (incidência de índios autônomos no Gran Chaco).
Convidada ao evento, parte da equipe que atua junto ao povo Zo’é: o Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema- indigenista João Lobato, os médicos Dr.Erik Jennings Simões(FUNASA) e Dr. Moacyr Boreli Tormes (UEPA), a indigenista Rosa Cartagenes, coordenadora do AMAZOÉ, e a lingüista Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, pesquisadora e colaboradora junto aos Zo’é , no evento representando o  LALI-UnB, juntamente com o emérito Prof.Aryon Dall'Igna Rodrigues.  O LALI- Laboratório de Línguas Indígenas da UnB (Universidade de Brasília), tem desenvolvido  atuação fundamental na formação de profissionais  empenhados na pesquisa e promoção de línguas indígenas ameaçadas no Brasil.
Em destaque nos relatos de experiências nacionais com povos indígenas isolados e de contato recente , a apresentação do módulo sobre Saúde Zo’é demonstrou em imagens a estrutura e práticas do atendimento a saúde na Frente Cuminapanema nos últimos dez anos, bem como gráficos demonstrativos do crescimento populacional, do baixíssimo índice de mortalidade relativa e a taxa de nascidos-vivos/mortalidade infantil, proporcionalmente melhor entre os Zo’é até mesmo do que nos países europeus.
Enfatizou-se a busca por soluções de conciliação cultural nos tratamentos médicos, o respeito pelas concepções culturais de saúde e de corpo da cultura e cosmologia Zo'é, a manutenção da dieta tradicional da população indígena como um dos fatores  determinantes da boa saúde Zo’é, bem como a preservação de seu  ecossistema, caracterizando a conservação ambiental como um dos pilares da saúde coletiva numa percepção holística, entendendo a saúde como o bem-estar físico, psíquico e social.

 

MARÇO 2010:

VACINAÇÃO PREVENTIVA ANTI-H1N1 ENTRE OS ZO'É

A partir de 16 de março de 2010, inicia-se campanha de vacinação preventiva contra o vírus H1N1 – o da gripe suína – entre a população indígena Zo’é. A ação sanitária, desenvolvida pelo Ministério da Saúde em atuação executiva conjunta da FUNASA-DSEI-Santarém e FUNAI-Frente Cuminapanema, pretende atingir a cobertura vacinal do total da população indígena, atualmente  252 pessoas. Conforme legalmente previsto e avaliado pelas autoridades sanitárias, as populações indígenas são consideradas grupos de risco, e portanto determina-se vacinação preventiva prioritária no caso de quaisquer tipos de epidemias.

 

 

JANEIRO DE 2010:

CIRURGIAS DE ALTA TECNOLOGIA NA TERRA INDÍGENA ZO'É

Nos dias 14 e 15 de janeiro 2010 foram realizadas cirurgias em VIDEOLAPAROSCOPIA, de alta complexidade e tecnologia de ponta, em 04 mulheres da etnia ZO’É, atendidos pela CGIIRC-Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato, da FUNAI.
A cirurgia, denominada colecistectomia, consiste na solução cirúrgica do que popularmente é conhecido como “pedras na vesícula”; em Medicina   colecistopatia litiásica. Há uma referência mundial de maior incidência desta patologia no quadro conhecido como “os 4 F”: Female (mulheres), Fatty (“gordinhas”), Forty ( na faixa dos 40 anos) e Fertility (férteis, multíparas). Entre os Zo’é, povo indígena contatado na década de 80, suspeita-se que sua dieta alimentar tradicional, rica em gordura animal (oriunda da caça) e com ingestão maciça de castanha-da-amazônia (Bertolletia excelsia) favoreça a propensão feminina à colelitíase, inclusive em mulheres multíparas mais jovens. A doença, quando agravada, pode levar a óbito pela ruptura da vesícula biliar.
O evento cirúrgico, inédito em área indígena e em localização remota na Amazônia, foi resultado do empenho coletivo e voluntário de um grupo de médicos especializados, apoiados pela Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema-CGII-FUNAI, Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, Hospital Municipal Santa Izabel, de João Pessoa (PB), Hospital Universitário da UFPB e FUNASA/DSEI-Santarém.
A necessidade cirúrgica foi inicialmente diagnosticada pelo Dr..Erik Jennings -Coordenador em Saúde da Frente Cuminapanema pelo DSEI-STM- com a colaboração voluntária dos Drs.Alan Soares e Bruno Moura, médicos radiologistas do Hospital Regional do Oeste do Pará (Santarém), que realizaram ultrassonografias com equipamento portátil na própria área indígena, constatando a colelitíase com indicação cirúrgica  nas 04 pacientes Zo’é.
Posteriormente, a articulação do Dr.Fábio Tozzi, cirurgião do PSA-Projeto Saúde e Alegria, de Santarém, e médico colaborador  junto aos Zo’é, atraiu a participação voluntária do cirurgião Marcelo Averbach , do médico anestesista Enis Donizetti  Silva (Hospital Sírio-Libanês -SP) e do cirurgião Paulo Haiek ( Hospital Municipal Santa Izabel - João Pessoa, e Hospital Universitário da UFPB). O Hospital Sírio e Libanês  apoiou decisivamente a iniciativa, cedendo  o videolaparoscópio e todo o aparato tecnológico para a adaptação do Centro de Saúde da Terra Indígena Zo’é para a realização desta cirurgia de alta complexidade. Os hospitais da Paraíba cederam parte dos materiais necessários aos procedimentos, e para disponibilizarem tais materiais ao evento suspenderam durante a semana as cirurgias similares não-urgentes em sua programação interna. Em área, os cirurgiões receberam integral  apoio técnico e linguístico da enfermeira Suely de Brito Pinto, da Frente Cuminapanema.
A colecistectomia  por videolaparascopia é uma técnica que revolucionou as cirurgias intra-abdominais a partir dos anos 90. Exige tecnologia em equipamentos e técnica cirúrgica altamente especializada, pois os procedimentos são realizados sem contato manual direto. Pequenos tubos são inseridos na cavidade abdominal e através deles são introduzidas uma microcâmara com fonte de luz e pinças específicas para este método. As pinças são operadas a partir da visualização através de um monitor de vídeo. O procedimento é minimamente invasivo, pois a introdução das pinças é feita a partir de 4 incisões mínimas (de 5 a 10mm). Permite um pós-operatório com pronto restabelecimento e menor incidência de dor, possibilitando liberação dos pacientes em menos de 24 horas. Técnicas e substâncias anestésicas igualmente avançadas permitiram às pacientes Zo’é saírem do evento cirúrgico  em excelente estado geral e sem queixas de tonturas ou dores e, sem riscos pós-cirúrgicos, em pouco tempo retornarem às aldeias e retomarem suas atividades usuais.

 

DEZEMBRO/2009:

SOMOS 250 ZO'É!!!!

Nasceu ontem - 01 de Dezembro, criança Zo'é do sexo feminino, filha do jovem casal Potowá e Monim. É o membro 250° do total atual da população Zo'é. Apesar de surto sazonal recente de malária (out/nov) e outro, em estágio inicial, de gripe comum (influenza), regularmente controlados e tratados pela equipe de Saúde em área, a população cresce e se fortaleça. Bons ventos a tragam, cunhataim!

 

Setembro/09:

DOCUMENTÁRIO SOBRE OS ZO'É SELECIONADO PARA O FESTIVAL DE BIARRITZ, NA FRANÇA

Tem início neste final de semana ( de 28-09 a 04-10) o mais importante evento europeu sobre cultura latinoamericana: o Festival Biarritz Amérique Latine Cinéme et Cultures, que está em sua décima oitava edição, promovendo o cinema, a música, a dança e as culturas latinas. Entre os filmes selecionados, o documentário de Serge Guiráud e Maité &Paul Dequidt ; “Zo’é : os Homens da Última Fronteira” ( 28 min.), filmado na Terra Indígena Zo’é em 2008 e lançado durante a Semana dos Povos Indígenas, em Brasília, em abril de 2009. Entre imagens espontâneas do cotidiano da comunidade Zo’é, o fundo reflexivo é uma entrevista filosófica  com o indigenista João Lobato, Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema, da CGII-FUNAI, que fala da história, dos contrastes, das dúvidas e das esperanças de futuro Zo’é, povo de língua Tupí-Guarani contatado no noroeste do Estado do Pará nos anos 80. Apresentações do documentário nos dias 01 e 03 de outubro; confira a programação oficial do Festival (em francês) em http://www.festivaldebiarritz.com/

 

NOTA DE ESCLARECIMENTO: SOBRE SAÚDE ZO’É E IMPRENSA SENSACIONALISTA DE SANTARÉM-PA

Há algumas semanas, tablóide sensacionalista de Santarém veiculou entrevista com suposto “médico” alardeando que a população Zo’é estaria mais exposta do que outras parcelas da população à gripe suína -H1N1.
A este respeito, esclarecemos que o referido não mantém e nunca manteve nenhuma relação profissional com o atendimento de saúde aos Zo’é, bem como: 1) As populações indígenas isoladas e de recente contato são consideradas, epidemiologicamente, como grupos de risco, em virtude de seu sistema imunológico diferenciado e suscetível às doenças comuns de origem externa 2) A despeito disto, o acesso a população Zo’é é regularmente controlado pela CGII-Coordenação Geral de Índios Isolados/FUNAI, inclusive com rigorosa triagem médica individual, sendo parte do padrão usual de acesso restrito da FUNAI para áreas de índios isolados e de contato recente 3) Os Zo’é dispõe em sua Terra Indígena de modelar estrutura de atendimento à Saúde e disponibilidade de profissional de saúde em tempo integral, sendo referência  nacional no atendimento a índios de recente-contato 4) Até o momento, o Ministério da Saúde/FUNASA e FUNAI não detectaram nenhum caso comprovado de H1N1 entre os indígenas na Amazônia Brasileira.Todas as áreas indígenas em território nacional estão sob restrição de acesso, conforme comunicação da FUNAI expedida à todas as suas unidades em 14-08-09 (vide www.funai.gov.br)

Especificamente em relação aos Zo’é, o quadro de Saúde coletivo esteve estável nos últimos meses, não se verificando nenhum caso de quaisquer tipos de gripe, nem incidência de malária. Um caso individual de agravamento por provável acidente com peçonhento e posterior infecção foi devidamente tratado, assim como uma picada de cobra-coral (provavelmente “falsa” coral), sem gravidade. No presente momento (setembro 09) não se verifica em área nenhum caso gripal, mesmo de gripe comum, permanecendo em área para o atendimento cotidiano de Saúde a enfermeira Suely de Brito Pinto. A população indígena Zo’é atual consta de 248 membros (setembro/2009).

 

 

 

GOVERNO DO BRASIL : ÍNDIOS ISOLADOS E DE RECENTE CONTATO EM FOCO

 

Tarso Genro e Tarpin Zo'é-foto Erik Jennings

Ministro Tarso Genro e Tarpin Zo'é - foto Dr.Erik Jennings

Foto em www.notapajos.globo.com

Esteve na Terra Indígena Zo’é (19-20/06/09) comitiva do Ministério da Justiça e órgãos relacionados encabeçada pelo Ministro Tarso Genro; além do Presidente da FUNAI, Márcio Meira, Coordenador Geral de Índios Isolados-CGII, Elias Bigio; Diretor Geral da Polícia Federal, Luis Fernando Corrêa; Chefe de Assuntos Sociais e Políticos da PF, Carlos Alberto dos Santos, Secretário Adjunto de Direitos Humanos, Rogério Sotilli, representantes da imprensa e observadores da sociedade civil, como a antropóloga da USP, Dra. Dominique Gallois.

Foram recepcionados na sede Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema, instância local da CGII-FUNAI, pelo seu Coordenador, o  indigenista João Lobato, equipe de área e colaboradores integrados à equipe: Dr.ª Camila Tormes (Odontóloga), Dr.Erik Jennings Simões (Neurocirurgião), os auxiliares-de-campo João Pimentel, Joel Souza e Joel  Filho, Dr.Moacyr Boreli (Patologista), as técnicas em Enfermagem Sandra Pena e Suely Brito Pinto e indigenista  Rosa Cartagenes, bem como por membros da comunidade Zo’é.
O objetivo da visita foi conhecer e refletir sobre o trabalho desenvolvido junto aos Zo’é pela Frente Cuminapanema-CGII-FUNAI, que tem se notabilizado como referência nacional quanto à condução governamental  nas ações de proteção aos grupos indígenas denominados como de recente contato, como são juridicamente considerados os Zo’é. O trabalho da CGII junto aos Zo’é conseguiu reverter ao longo dos últimos anos tanto o grave quadro de saúde na qual este povo se encontrava, quanto possibilitou a reestruturação sócio-política e de autonomia econômica da sociedade Zo’é , o que tem se traduzido em constante crescimento demográfico, integridade cultural e qualidade de vida desta população indígena.

Como historicamente é amplamente comprovado, os períodos imediatamente posteriores ao estabelecimento de relações continuadas com segmentos da sociedade nacional são complexos e críticos para a sobrevivência de grupos indígenas até então resguardados pelo isolamento geográfico e autonomia social. Além de graves perdas demográficas provocadas pela contaminação por doenças que seus organismos desconhecem e para as quais não desenvolveram imunidade fisiológica, costumam ser vítimas de violentas pressões e perseguições genocidas por parte de segmentos regionais que possuem interesses econômicos em suas terras e recursos naturais. Muitos destes grupos foram exterminados sem rastros visíveis ao conhecimento público, e outros padeceram perdas numéricas irrecuperáveis, que inviabilizam sua reprodução como grupo humano específico, bem como a operacionalidade de suas práticas sociais, econômicas, políticas, cosmológicas, ecológicas. É o etnocídio associado ao genocídio.

Recentemente, o programa “Profissão Repórter” da Rede Globo veiculou matéria sobre as situações extremas dos Akuntsú (seis sobreviventes) e do chamado “Índio do Buraco"(último sobrevivente de um povo), em Rondônia, cujos trabalhos de acompanhamento são desenvolvidos pela Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé, coordenada pelo indigenista Altair Algayer, da CGII-FUNAI. Na primeira semana de junho de 2009, reunião entre representantes do Governo, sociedade civil e lideranças dos índios Marubo, Matís e Kanamary  da Terra Indígena Vale do Javari (AM) elaborou um “Pacto de Proteção aos Povos Indígenas Isolados da T.I.Javari”, considerando a urgência e a gravidade de ameaças que pressionam os grupos indígenas autônomos ou de recente contato naquele território, que é o segundo maior território indígena homologado no país (8,5 milhões de hectares), abrangendo territórios dos Kanamary, Kulina Pano, Marubo, Matís, Mayoruna, Korubo, Tsohom Djapá e vários grupos indígenas não-contatados. Atualmente há 21 aldeamentos com 32 malocas de referências de isolados confirmadas pela Frente de Proteção Etnoambiental Javari, instância local da CGII-FUNAI. Além das invasões continuadas e comprometimento dos recursos naturais indispensáveis a sua sobrevivência,  estes grupos autônomos encontram-se altamente ameaçados pela permanente possibilidade de contaminação das graves patologias que assolam o Vale do Javari, tais como Hepatites(A,B,C e D), Malária, Filariose, Tuberculose, entre outras.

A legislação brasileira e a atuação do órgão indigenista oficial -FUNAI- constitui-se atualmente como referência internacional em todos os fóruns sociais direcionados à questão indígena relacionada aos povos indígenas autônomos sobreviventes em várias partes do planeta.

Espera-se que o despertar de um renovado interesse e preocupação do Estado Brasileiro com a grave situação dos povos indígenas isolados e de recente contato seja geratriz de políticas públicas contundentes para a salvaguarda dos índios isolados e de recente contato em território nacional.

Ao Ministro Tarso Genro, Sra.Sandra Genro e demais integrantes da comitiva, agradecemos a postura respeitosa exemplar, amabilidade e sensibilidade social demonstrada durante o breve e produtivo encontro na Terra Indígena Zo’é.

 

 

 

 

 

 

 

 

Sebastião Salgado-Cessão AMAZOÉSebastião Salgado: Avó, neta e urubú-rei, 2009

 

 

Sebastião Salgado-Cessão AMAZOÉSebastião Salgado: Tarpin volta da caça, 2009

 

 

O evento recente dos Zo’é nos Campos Gerais assume um triste contorno não pela distância percorrida ou pelo inusitado quantitativo – sabemos de indivíduos e grupos que já “andaram” bem mais longe. Mas por ser resultante de mais um incidente de manipulação direta da credulidade e “ansiedades” de um povo  pelos interesses anti-indígenas na região. Missionários jamais virão a público dizê-lo, mas desde sua expulsão da T.I. têm  patrocinado  e efetivado diversas invasões ao território Zo’é, sempre com o intuito de aliciá-los e atraí-los para “fora” – onde supostamente poderiam, à margem da lei, “evangelizá-los” à vontade. Para invadirem a T.I., utilizam exploradores regionais envolvidos com todo tipo de ilicitude na região. Nos últimos anos, têm manipulado como pontas-de-lança  indígenas cristianizados de outras etnias do entorno, como os Wai-Wai e os Tiryió, para adentrarem furtivamente aos aldeamentos Zo’é, levando “presentes” ( os de sempre: roupas usadas, panelas, plásticos, “comida de branco” , espingardas.. e inclusive algumas epidemias) e sempre os convidando “para fora”.  Várias denúncias e documentos comprovatórios  a respeito foram ao longo dos últimos anos arrolados junto ao MPF/Procuradoria Geral da República, justamente porque tais “visitas”, totalmente manipuladas, têm trazido aos Zo’é doenças, desequilíbrios políticos internos, estresse social, insegurança e até mesmo mortes. Há muitos anos o MPF acompanha o trabalho junto aos Zo’é, e vários procuradores da república  se fazem presentes, avaliando e avalizando a positiva ação governamental ali desenvolvida.
Infelizmente, tudo o que temos é a palavra dos Zo’é  contando sua versão do evento como “prova testemunhal”. Mas basta assistir aquelas imagens – uma turba de homens, mulheres e crianças famintos, estropiados, assustados, “travestidos” com andrajos de última hora “gentilmente” doados  pelos “castanheiros cineastas”,  claramente induzidos à repetição do remoque “Funai não dá...João não dá”... Quanta manipulação e desrespeito com um povo. Nada da beleza, da serenidade e da vitalidade do dia a dia. “De quebra”, a mediocridade da reportagem da TV Atalaia (retransmissora da Record, claro) repetindo que os Zo’é eram índios “aculturados” porque vestidos. Deplorável. E sabe-se que pelo menos um dos referidos “trabalhadores da castanha” ali presentes é relacionado desde os anos 80 com missionários envolvidos no “contato” dos Zo’é, e já foi processado pelo MPF como invasor de terra indígena e aliciador.
 A história e a sobrevivência da sociedade Zo’é  são questões muito complexas  para se resumirem  em espaços midiáticos de blogsferas ou do sensacionalismo de TVs. A atuação, inédita, que a FUNAI e sua equipe têm desenvolvido ali não é referenciada em “antropólogos de meia-tigela”  ou “jardins antropológicos” de ”índios pobres”: os Zo’é são, ainda, uma sociedade da fartura, da saúde, sem órfãos, sem caciques, sem patrões. Colocar os Zo’é como índios oprimidos , com ou sem roupa, revela total desconhecimento de sua cultura, seu cotidiano  e do trabalho árduo e dedicado de mais de uma década  que devolveu aos Zo’é sua saúde, sua integridade cultural, seu território tradicional, sua vida em plenitude. Como diz “A Palavra”, a boa árvore se conhece por seus bons frutos..pelos frutos os conhecereis. Dispor dos índices de saúde apresentados pelo Dr.Erik  e atestados por todos os profissionais que ali já estiveram  (médicos, sanitaristas, advogados,  jornalistas, ambientalistas, documentaristas; “turistas”, nunca) só demonstra um caminho muito positivo de esperança para um povo que poderia estar condenado ao genocídio (como tantos outros) desde seu virtual “contato”. Os Zo’é não têm um quadro excelente de saúde apenas por disporem de atendimento médico exemplar, mas sobretudo porque têm respeitados seu modo de ser e de viver, seus parâmetros sociais, seu pensamento cosmológico e seu conhecimento ancestral, sua diversidade cultural e humana.  E temos muito a aprender com eles.
Como toda sociedade humana e diversa, os Zo’é  têm seus próprios ritmos, desejos, questionamentos, interpretações   e possibilidades. Atualmente, mais de 75% de sua população tem menos de 25 anos – massa explosiva e “hormonal”, com a ânsia legítima de tudo ver, tudo conhecer, tudo querer. As pressões externas e internas têm sido muitas e crescentes, precipitando mudanças, crises e indecisões coletivas. Isto é previsível, histórico e faz parte das relações humanas e político-sociais. Não existe “redoma”, e os Zo’é estão, e sempre estiveram, em constante transformação. Evidentemente  o órgão indigenista oficial e todos os agentes sociais envolvidos têm de repensar, reelaborar  e inovar permanentemente em suas  ações para relacionamentos interétnicos  mais justos  e profícuos. Este é um processo constante, e como tudo que é humano, dinâmico.
Certamente, muito há a se refletir, analisar e redimensionar. E muito há, ainda, a se proteger. Não se trata de discutir crenças ou reportar acusações, o que é contraproducente. Trata-se da salvaguarda, inclusive física, de uma minoria étnica em clara situação de desvantagem e vulnerabilidade diante da fagocitose de amplos segmentos que ambicionam seus corpos físicos, terras, recursos naturais, patrimônio cultural e até mesmo suas “almas”. Aos Zo’é, o pleno direito de serem Zo’é, e o amparo legal do Estado para que este povo construa seu futuro em segurança,  com um tempo necessário para o desenvolver de sua própria criticidade e seus caminhos possíveis, sem terem de se transmutar em “mais um” na vala comum dos párias sociais.
Que a sociedade paraense  reflita  e se informe um pouco mais sobre as graves ameaças aos últimos povos livres da face da Terra, e ao menos remotamente perceba o privilégio de abrigar (e defender) em seu seio um povo único, belo, e ainda não canibalizado pela padronização global.

Rosa Cartagenes, indigenista, inspetora sanitária (SES-DF), comunicóloga (UFRJ), apóia volutariamente o trabalho da FUNAI junto aos Zo'é desde 1998. É atual coordenadora geral da associação AMAZOÉ- Apoio Mobilizado ao Povo Zo'é e Outras Etnias, e atua na Amazônia como indigenista voluntária há 25 anos (MT, AM, RO e PA). Contraponto veiculado em jesocarneiro.blogspot

 

 

...JÁ NAS MADRUGADAS DE SETEMBRO...

Mal  um entrou no casório, o outro partiu para o parto! Nasceu aos 25 minutos da madrugada de 27 de setembro, em Alter-do-Chão  o menino   RUDAH , irmão de Giuliana e Luara   e  filho de Adriana e do Dr.Fábio Tozzi, médico  cirurgião também colaborador e voluntário junto aos Zo’é, coordenador em Saúde do PSA-Projeto Saúde e Alegria e membro dos Expedicionários da Saúde. Parto natural, feito em casa pelo próprio pai, tudo na paz e na saúde, como manda o figurino da mesma Mãe Natureza. Com direito à visita de uma preguiçosa Preguiça que veio vê-lo no terraço ao raiar da manhã!

  Bem vindo , “Kwanín” (menino, em língua Zo’é), a este mundão de Deus e à beleza de nascer amazônida!

 

... E INDIGENISTA  POETANDO!

O indigenista de longo curso João Lobato, coordenador há 14 anos  dos trabalhos da Frente de Proteção Enoambiental Cuminapanema /FUNAI junto aos Zo’é,  rompeu a timidez literária e cedeu à publicação de um de seus poemas  no lançamento da coluna “Poetando”, do  Blog “Espalha Brasa”, Zezo Ferreira,  Santarém.  

O poema, chamado “Monólogo Sertanejo”,  é da “fase Aripuanã”, época em que Lobato atuava junto aos índios Cinta Larga (MT), mas a temática é puro sertão. Alma de artista, Lobato também pinta e faz paisagismo, com efeitos surpreendentes para quem conhece os jardins do Cuminapanema.  Os leitores pediram mais: vale a pena conferir  acessando o link: http://zezoferreira.blogspot.com/2010/09/zezo-lanca-o-poetando.html#links

 

AGOSTO 2010:

"O BRASIL NO OUSADO PROJETO DE J.R.DURAN"

Por Simonetta Persichetti, especial para O Estado (26/08/10)

"Um projeto ousado, este da Revista Nacional, criada e editada pelo fotógrafo J.R. Duran em parceria com a Burti. Uma publicação de 144 páginas que não terá lançamento nem será comercializada. Os 2 mil exemplares que acabam de ser impressos serão distribuídos por meio do e-mail revista@burti.com.br. Uma publicação sem anunciantes e sem periodicidade fixa. Uma revista customizada. Sabe-se apenas que será anual. Uma revista de qualidade gráfica excelente. Talvez, por isso, a palavra certa para este projeto seja ambicioso. 'Uma revista para ver, ler e guardar', explica o fotógrafo por telefone.
Montada em lombada canoa e grampeada, grande formato e impressa em papel Novatech 170 g 'como se fossem fascículos', a revista tem previsão de durar dez anos: 'No fim, teremos um volume único com 1.440 páginas, que mostram o Brasil.' Essa é a idéia, contida em 1,5 kg de publicação. As matérias não têm títulos, apenas nomes que funcionam como se fossem um código: 'Não são pautas. Convido pessoas a escreverem sobre temas, como quiserem, quanto quiserem e do jeito que preferirem. Em seguida, escolho as fotos para acompanhar os textos', relata Duran. As pessoas são múltiplas, mas as fotos são todas do próprio Duran. 'Ensaios que gosto de fazer por conta própria, porque os temas me interessam. Não são trabalhos encomendados. '
Neste primeiro volume, encontramos escritores e jornalistas escrevendo sobre variados e impensados temas: 'Não diria que é new journalism, mas uma maneira de a pessoa se expressar como desejar.' Por exemplo, texto do jornalista Fernando Paiva sobre pontes; do diretor da revista Brasileiros, Hélio Campos Mello, sobre o maestro João Carlos Martins; do cineasta e também diretor da revista Piauí, João Moreira Salles, sobre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso; da indigenista Rosa Cartagenes, que relata a vida dos índios Zo'é, só para citar alguns nomes que assinam matérias. Um processo de construção demorado e minucioso: 'Recebo os textos e começo a desenhar as páginas. Isso demora. Preparo, troco, olho. Escolho a foto certa, e assim vai.' Quase um processo artesanal. Um deleite. Poderia até ser descrito como hobby, não contasse a revista com a coordenação de Carol Steenmeijer, com apoio de Luiz Carlos Burti, Leonardo Burti e Leandro Burti, e fosse finalizada, impressa e distribuída.
Sonho. Com design limpo e clássico - 'Só tem uma tipografia, fundo branco para todas as fotos' -, a publicação nos lembra as revistas ilustradas do início do século passado. Um sonho há muito acalentado por J.R. Duran. 'Esse projeto vinha sendo elaborado em minha mente faz tempo, até que um dia decidi mostrá-lo para os Burtis e eles deram apoio.' (...)

(Leia o artigo completo em www.estadao.com.br)

 

 

Tehun e família-J;Lobato/FPEC-FUNAI

Saúde, equilíbrio social e segurança familiar: a sociedade Zo'é ainda preserva muito de seu modo de ser e cultura ancestral, em lições de bem viver incompreensíveis à sociedade do "capital globalizado"- foto J.Lobato/Arquivo FPEC-CGII

A Frente Cuminapanema tem desenvolvido uma linha de atuação inédita junto a populações indígenas em áreas remotas, investindo na implantação de infraestrutura de alta qualidade na própria terra indígena, disponibilização de profissional de saúde em tempo integral em área e uma rede eficiente de colaboradores externos, sobretudo voluntários, que propiciam cobertura emergencial e acompanhamento médico especializado quando necessário, além de articulação institucional com outras instâncias relacionadas, como FUNASA e MPF. Esta rede tem se consolidado e ampliado, permitindo conquistas fundamentais em benefício do povo Zo’é, como a estabilização do quadro sanitário, a proteção jurídica do território indígena e seu entorno e o atendimento das questões internas com diálogo e criticidade.
Os Zo’é são considerados juridicamente como “povo indígena de recente contato”, assim como os Akuntsú e Kanoê (RO) e os Zuruahá (AM). No início deste ano, a CGII-Coordenação Geral de Índios Isolados/FUNAI, tornou-se CGIIRC – Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato, atendendo a situação específica destes povos, cujo restrito relacionamento com a sociedade envolvente demanda monitoramento e proteção especial, inclusive pelos riscos sanitários em questão.

Como indígenas de recente contato, cujo convívio com as patologias externas remontam poucas décadas, os Zo’é apresentam  sistema imunológico diferenciado de outras populações, sendo ainda bastante suscetíveis a diversos tipos de infecções respiratórias. No entanto, as campanhas regulares e pontuais de multivacinação, mantidas há anos como item essencial no programa interno de Saúde na Frente Cuminapanema, têm permitido considerável reforço imunológico,  e uma melhor resistência coletiva a diversas patologias que tantos danos infligem aos povos indígenas no Brasil.

 

 

Equipe Laparoscopia-foto Suely BritoEquipe Cirúrgica:Dr.Enis Silva, Dr.Marcelo Averbach, Dr.Fábio Tozzi, Dr.Erik Jennings, Dr.Paulo Haiek, num click da enfermeira Suely Brito.

 

 

Preparação Cirúrgica-foto Dr.Erik JenningsWo'ý , uma das pacientes Zo'é, sendo preparada para a videolaparoscopia: ao lado observa-se parte do equipamento: foto Dr.Erik J. Simões.

 

 

Os Zo’é ficaram conhecidos na mídia no final dos anos 80 como um dos últimos povos Tupí contatados na Amazônia. Tiveram graves perdas demográficas no período inicial pós-contato, e seu atendimento foi assumido exclusivamente pelo então Departamento de Índios Isolados, da FUNAI (atualmente, CGIIRC) apenas em 1991. Desde então, o aporte maciço em saúde, tanto no  atendimento  quanto na infraestrutura clínica no interior da área indígena, permitiu a segura recuperação demográfica e estabilização do quadro de saúde. Concomitantemente, um incisivo trabalho de reforço à identidade cultural e  autonomia econômica em seus próprios padrões de auto-sustentação no ecossistema de Floresta Tropical Úmida, no qual este povo está harmoniosamente inserto, têm possibilitado aos Zo’é romperem o século XXI como um dos povos de recente contato com melhores índices de saúde integral e excelente patamar de qualidade de vida, sem comprometer seu  ethos tribal. Atualmente, a população Zo’é constitui-se de 252 pessoas, e são assistidos pela Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema , instância local da CGIIRC-FUNAI, coordenada há mais de dez anos pelo indigenista João Lobato.

 

 

panemekipusi_guiraud

Menina Zo'é com seu animalzinho de estimação: este, chamado em sua língua de "Kipusí" ( é o "mico-mão-de-ouro" , regionalmente), é um dos mais presentes neste ecossistema .Foto SergeGuiraud/Jean&Marie Dequidt

 

 

 

REITERANDO:

A associação AMAZOÉ é formada por um reduzido número de profissionais que há vários anos prestam apoio técnico, logístico e sociocultural ao povo indígena Zo’é. É uma estrutura civil, leiga, apartidária e voluntária, que atua em estrita colaboração com o órgão indigenista oficial, mas não exerce qualquer tipo de ingerência na estrutura governamental da presença e assistência aos Zo’é, muito menos nas diretrizes do Governo Brasileiro ali determinadas. Ao contrário do que falsamente o tal tablóide publicou, o AMAZOÉ não tem nenhuma autoridade ou relação com a acessibilidade à Terra Indígena Zo’é, que é exclusivamente regulamentada pela Coordenação Geral de Índios Isolados-CGII/FUNAI e coordenações relacionadas, mediante chancela da Presidência da FUNAI.

 

 

QUEM TEM LÍNGUA VAI À ROMA...OU PARIS!

Em alta intensidade as atividades linguísticas de "nossa" tupinóloga-mor, Professora Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, que esteve recentemente realizando trabalhos de campo junto a três etnias: Xetá, Krenak e Asuriní do Tocantins.

Ana Suelly Câmara Cabral

"De quebra", deu entrevista sobre seu trabalho junto aos Zo'é ao prestigiado semanário francês Courrier International (Correio Internacional) do grupo Le Monde, que é uma compilação de reportagens dos assuntos mais importantes da semana nos cinco continentes. Confira a entrevista no original (em francês) no endereço

http://www.courrierinternational.com/article/2009/07/03/la-femme-qui-savait-parler-aux-indiens.

E, acima, a carinha charmosa da linguista, das mais 'arretadas' do Brasil!

 

 

DEU NO "New York Times"...

Entrevistado em Los Angeles (EUA), em reportagem que cita os Zo'é, o fotógrafo Sebastião Salgado comenta: "Estou 100% certo de que, sozinhas, minhas fotos não fariam nada. Mas como parte de um movimento maior, espero que elas façam a diferença", disse ele. "Não é verdade que o planeta está perdido. Precisamos trabalhar duro para preservá-lo".

Confira a entrevista no site da UOL Internacional: www.uol.com.br/midiainternacional


 

 

TAMBÉM EM ABRIL:

Em dossiê especial sobre a Amazônia, a revista francesa GeoAdo (nº 74), especializada em ecologia e direcionada  ao público adolescente, trouxe o menino   Rabý Zo’é  na capa, e um artigo de seis páginas sobre os Zo’é, entre outros povos indígenas da Amazônia, sobretudo demonstrando a harmonia dos povos indígenas com sua  floresta e as ameaças que pairam sobre o ecossistema amazônico: reflexões importantes para as novas gerações... As fotos também são de Serge Guiraud, confira o site da revista em www.geoado.com

 

Jovem Zo'é preparando caça - Serge Guiraud

Jovem Zo'é preparando caça- foto Serge Guiraud-Arquivo AmaZoé/Frente Cuminapanema

 

NA SEMANA DOS POVOS INDÍGENAS...

...em Brasília, que ocorre anualmente como parte das comemorações oficiais do “Dia do índio” (19  de abril, mas prá gente, “todo dia é dia de índio”...), aconteceu no Memorial dos Povos Indígenas a exposição fotográfica “Zo’é - Os Homens da Última Fronteira”, do fotógrafo e documentarista francês Serge Guiraud.  Guiraud  foi o primeiro fotógrafo a registrar as imagens dos Zo’é, quando a FUNAI assumiu a condução do processo de “contato” e assistência governamental a este povo (1988), tendo retornado à Terra Indígena Zo’é em 2008, ou seja, após 20 anos..  Paralelamente à exposição, foi lançado o curta-metragem “Zo’é – Os Homens da Última Fronteira”, onde em entrevista com o indigenista João Lobato, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema –CGII-FUNAI, Guiraud apresenta cenas da vida cotidiana Zo’é tendo ao fundo a fala do indigenista sobre a história do “contato”, os desafios e as transformações que tem delineado o passado e presente da sociedade Zo’é. E as dúvidas e esperanças para o futuro...

 

ILUSTRES:

Estiveram  de passagem na Terra Indígena Zo’é o jornalista Felipe Milanez (National Geographic), em  fevereiro, e o fotógrafo Sebastião Salgado e equipe (Amazonas Images) em março/abril. Milanez tem se notabilizado pelas reportagens-denúncias de temática ambiental e indígena (Revista Brasil Indígena, Revista Rolling Stone  Brasil, Carta Capital; atualmente, editor assistente da Geographic Brasil) na imprensa nacional.  Sebastião Salgado, um dos grandes ícones internacionais da fotografia engajada  e embaixador da UNICEF, continua documentando os derradeiros refúgios da biodiversidade humana e natural do planeta para seu projeto intitulado  “GENESIS” ,, que pretende finalizar para a grande exposição em comemoração dos 50 anos da  UNESCO (2012). Salgado e sua esposa, Lélia Wanick, são fundadores e gestores do Instituto Terra www.institutoterra.org , que atua em recuperação ambiental, capacitação técnica agroecológica e fomento ao desenvolvimento rural sustentável na Mata Atlântica da região de Aimorés (MG).

Veja " à conversa com Sebastião Salgado", sobre o "Genesis" no blog português "Arte Photográphica", de Sérgio B.Gomes.

mulher_dinka_salgadoMulher Dinka" , de Sebastião Salgado (Sudão-2006) © Amazonas Images

DISTANTES, ÀS VEZES; AUSENTES, NUNCA...

Desde que idealizamos o sítio eletrônico AMAZOÉ, prevíamos que as muitas temporadas de presença em área em alguns momentos inviabilizariam uma atualização contínua da página eletrônica. Por este motivo, havíamos “congelado” as atualizações em novembro do ano passado (entrada para a área indígena), e pretendíamos retomar o e-sítio em fevereiro de 2009. Imprevistos de várias ordens - técnicos, financeiros e, sobretudo de saúde, nos impediram a retomada na data prevista, a nossa revelia. Pedimos nossas desculpas  aos leitores, e tentaremos atualizar as notícias do período da melhor forma possível .


MOTIVOS:

Fazendo às vezes de webdesigner  do sítio eletrônico, Rosa  Cartagenes  teve de se ausentar da Amazônia para cuidar de questões familiares de saúde, e  Suely Brito , nossa “enfermeira-chefe”,  retirou-se temporariamente da Terra Indígena por conta de um incidente grave de hérnia-de-disco (=excesso de trabalho...), em tratamento em Santarém. Também nossa “ antropóloga conselheira” , Betty Mindlin, esteve bastante envolvida com os cuidados de saúde de seu pai, o empresário e bibliófilo  José Mindlin ,  que recentemente doou a maior parte do acervo de sua fantástica biblioteca  particular ao público brasileiro, através da Universidade de São Paulo –USP (acesse aqui  a notícia). Já Sandra Ferreira Pena, enfermeira, e os Drs. Camila Tormes (Odonto-PSA), Moacyr Boreli  (Patologista-UEPA) e Erik J.Simões (Neurocirurgião-PMS),  estiveram bastante presentes e atarefados na Terra Indígena Zo’é: infelizmente em função de emergências e de uma séria epidemia viral que se abateu  sobre a comunidade entre os meses de março e abril,  que demandou a ação e participação concatenada de todos, mesmo à distância. À mesma época, a Linguista  Ana Suelly Arruda Câmara Cabral  também fez-se presente na T.I, operando como tradutora e realizando pesquisa lingüística. João Pimentel esteve de férias em suas Minas Gerais, mas já está de volta à Terra Indígena desde fevereiro, e Thiago Kamiwirá continua fazendo via web o meio-de-campo de traduções e contatos internacionais.
Durante o período, os recursos eletrônicos do AMAZOÉ estiveram concentrados na conexão contínua com a coordenação da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema, fazendo a necessária ponte para  providência de suporte logístico e encaminhamento de  recursos médicos da cidade para a floresta.

 

AGRADECIMENTOS EM LARGA ESCALA:


O controle e resolução da epidemia demandou a atuação e esforço denodado de vários profissionais de Saúde, em diferentes momentos, no interior da Terra Indígena ou fora dela. Nossos agradecimentos à Aurilena Coelho (Aux.Enf.), Drª. Camila Tormes (Odontóloga), Dr.Emmanoel Silva (Médico), Dr.Erik Jennings Simões(Médico), Dr.Fábio Tozzi (Médico), Drª Fátima Barbosa(Médica), Jeisa  Soares Castro (Téc.Enf.) , Juraci  Pereira (Téc.Enf.), Dr.Luiz Neves (Médico), Dr.Waldemar Ribeiro (Médico) e equipe: Simone Evangelista e Fernanda Oliveira (Auxs.Instrum. Cirúrgica), Sandra Pena (Téc.Enf.),bem como à equipe da Amazonas Images (Sebastião, Lélia e Juliano Salgado), que disponibilizaram  telefonia pessoal via satélite para o atendimento de urgências. Agradecemos igualmente aos profissionais que agilizaram apoio direto a partir da cidade: Equipe do Distrito Sanitário Especial Indígena-DSEI-Pólo Base Santarém,  Equipe SIPAM Belém, Técnica em Enfermagem Suely de Brito Pinto, Piloto Walter Mouzinho Guimarães ...

CIRURGIAS EM ÁREA:
Apesar do esquema e ritmo de urgência durante o surto viral , a presença de diversos médicos especialistas propiciou a oportunidade de atender a demanda de algumas cirurgias de pequena complexidade no interior da Terra Indígena: Dr. Ribeiro e equipe realizaram  intervenções oftálmicas (correção de catarata) em Rabá Zo’é e Kiarpô Zo’é , e Dr. Erik Simões e Dr.Fábio Tozzi fizeram cirurgia de parafimose em Sinhú Zo’é .

 

TERRA INDÍGENA AMEAÇADA:
Em março  de 2009 , parte da área do entorno da Terra Indígena Zo’é foi notícia – infelizmente péssima – (veja aqui) relacionada a altos índices de desmatamento detectados pelos satélites do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)- Sistema DETER. O município de Monte Alegre, fronteiriço à Alenquer (onde se localiza uma pequena parte do território Zo’é), foi registrado como o município de maior área desmatada “na virada do ano”, entre novembro de 2008 e janeiro de 2009. Cerca de 39 km² de destruição – algo equivalente à Floresta da Tijuca, resquício de Mata Atlântica no Estado do RJ. Apesar de terem sido decretadas como “zonas intangíveis “ e que deveriam representar “o mais alto grau de preservação”, as faixas de proteção ambiental no entorno da T.I.Zo’é, inclusas dentro das FLOTAS (Florestas Estaduais) Paru e Trombetas têm sido frequentemente invadidas e estão sendo ilegalmente exploradas, colocando os Zo’é em situação de risco. Estamos de olho...

 

NASCE MAIS UM(A) ZO'É :

Veio ao mundo no último dia 26 de novembro/2008 uma criança Zo'é, de sexo feminino, filha de Pidihé e Tererén (Deby'tuporang). Mãe e filha estão bem, e todos nós felizes com mais este nascimento! Também em novembro, tivemos um acidente ofídico grave na área, com a jovem Cunhã'sé picada por uma temível surucucu (Lachesis muta), mas a presença sempre ágil e competente da enfermeira Suely Brito Pinto, da Equipe da Frente Cuminapanema, e a disponibilidade imediata de soro antiofídico liofilizado possibilitou socorro eficiente na própria área indígena. Cunhã'sé está bem, recuperando-se apenas de edema local na enfermaria da Frente.

DEZEMBRO: SEMANA DE(+) SAÚDE!

Aconteceu entre os dias 09 e 13 de dezembro mais uma semana de ação sanitária intensa junto aos Zo’é, em programação regular desenvolvida entre Pólo Base de Saúde Indígena/FUNASA-Santarém e Frente Cuminapanema/CGII/FUNAI. De 09 a 13, a equipe técnica de campanha anti-malárica, formada por Aurilena Coelho (Microscopista)e Joaquim Martins(Biólogo, Agente de Endemias), realizaram busca ativa de casos sub-clínicos de malária, efetivando hemoscopia em 100% da população indígena. Foi também realizada borrifação para controle vetorial  nas aldeias  Owitxanteary, Ndjikiritê, Zawarakiawen e na sede da Frente.  De 10 a 12, realizou-se  a  4ª campanha anual de Multivacinação, efetivada pelas técnicas em Enfermagem Sandra Duarte(Pólo Base STM) e Sandra Pena (Equipe Frente Cuminapanema-CGII), atualizando a cobertura vacinal de todas as crianças Zo’é,  inclusive iniciando-se a rotina preventiva da menina Zo’é recém-nascida. Aplicadas  as seguintes vacinas:BCG,Hepatite,Pólio, DPT, Influenza e Penta.

...++MAIS SORRISOS...

Também de 09 a 13 de dezembro,  a  Odontóloga Camila Tormes, profissional voluntária entre os Zo’é  desde  2006,  atualmente operando na Frente Cuminapanema através de convênio Pólo Base/ Prefeitura Municipal de Santarém,  realizou atendimento odontológico seqüencial dando continuidade ao programa de tratamento e manutenção da saúde bucal da comunidade indígena, bem como progrediu no levantamento do índice CPOD da comunidade. O índice de CPOD – relativo aos dentes Cariados, Perdidos e Obturados – e o IPCÍndice Periodontal Comunitário, são índices estatísticos recomendados pela OMS-Organização Mundial de Saúde - para mensurar as duas patologias bucais mais prevalentes nos grupos humanos – a cárie e a doença periodontal. A ótima notícia é que na conclusão do levantamento  destes índices entre os Zo’é, constatou-se incidência ZERO  em crianças até os cinco anos!!! Em breve, disponibilizaremos o relatório técnico destes dados, aqui no e-sítio!

 

REAÇÂO MISSIONÁRIA AO AMAZOÉ:

Entre muitas manifestações de apoio e estímulo ao trabalho de divulgação do sítio eletrônico do AMAZOÉ, a maior parte oriundas de indigenistas de campo e instituições notórias de defesa dos direitos indígenas, recebemos a manifestação do missionário “Carlos” (sobrenome não citado no envio), da Missões Novas Tribos do Brasil, sob o título “Questionamento”. Em respeito à livre manifestação, publicamos a carta e sua respectiva réplica. Considerando-se que tanto a MNTB quanto as inúmeras instituições missionárias têm farta disponibilidade  midiática de reprodução de suas posições e versões, o que não ocorre na mesma medida com as questões indígenas relacionadas aos povos ditos isolados e de recente contato, limitaremos tal publicação a este questionamento e réplica, entendendo que o direito de propaganda e divergências ideológicas missionárias em geral deva ser tratado nos canais a elas pertencentes, adequados e disponíveis a isto:

Citando <poturu.br>:
  é realmente impresionante como pessoas que querem se passar por  
defensores do certo e do bem são capazes de difamar por pura  
 repetição outras pessoas das quais elas não sabem nada, sem sequer  
 consultar aqueles "criminosos" e ainda se dizerem protetores da  
virtude. por favor, tenham a decencia de pelo menos conhecer os acusados e  
 dar a eles o direito de se pronunciarem, e mais, publiquem a  
 verdade.....   vcs são uma vergonha para a democracia!!!
meu nome é carlos e sou missionário da mntb e vivi anos com os zoé.
falo aquela língua, conheço aquela cultura e faço parte daquela  
 família como adotado que fui... não por imposição, mas por afeição e 
confiança....!sinto vergonha de pensar que vcs... sejam quem forem, são  
 brasileiros como eu.... se o forem.
sinceramente! a propósito, estou enviando este e-mail para todos os homens e  
 mulheres de bem e com vergonha que conheço.

RÉPLICA DO AMAZOÉ: 

Sr.Carlos,
Inicialmente, reiteramos que não estamos "difamando por pura repetição" pessoas ou  instituições que não conhecemos. A ação proselitista da MNT é  bastante conhecida no Brasil e em outras partes do mundo, e por mais  que, pessoalmente, consideremos que muitos missionários, de todos os credos,  sejam pessoas abnegadas e bem intencionadas, os resultados deletérios  deste proselitismo também são bastante conhecidos. Algumas das pessoas aqui representadas vivenciam  há décadas situações de contato interétnico  promovido por inúmeras missões entre diversos povos indígenas, e são testemunhas pessoais da desagregação social e desestruturação política e cultural que via de regra  resultam do proselitismo missionário.
Também moramos por anos entre os Zo'é, falamos aquela língua e  conhecemos aquela cultura. E, por conhecê-la , sabemos que a  cordialidade e tolerância, natural e cultural dos Zo'é, os levam a receber de  braços abertos quaisquer pessoas que se demonstrem acessíveis, mesmo as  que lhes possam ser nocivas (inclusive garimpeiros, grileiros e todo tipo de exploradores eventuais), o que é demonstrativo de sua vulnerabilidade. De nossa parte, nunca colocamos que os  Zo'é não os tenham recebido com afabilidade, mesmo  porque coletivamente  ainda não  desenvolveram discernimento político  crítico suficiente para interpretar  muitos dos fatos recentes de sua própria história. É  pelo testemunho oral  e atual dos  Zo'é, que reafirmamos a dimensão  das perdas demográficas que se abateu sobre aquela primeira geração "pós-contato", pois alguns dos sobreviventes estão, graças a Deus e à ação enérgica e contínua da CGII-FUNAI, vivos e saudáveis para relatá-lo.
A MNTB tem tido diversas  possibilidades de se pronunciar a respeito , mesmo porque sempre dispôs dos inúmeros canais midiáticos (TV, rádio imprensa e web) representados pela enormidade global e corporativa que vossas  muitas seitas e grupos religiosos sempre souberam tão bem utilizar, inclusive para caluniar a ação indigenista séria do Estado que tem sido desenvolvida ali.
É justamente por sermos  brasileiros e prezarmos a democracia que estaremos  trazendo à sociedade civil certas partes da história, tantas vezes  esquecidas e que se repete ainda entre tantos povos,  onde a imposição religiosa, em nome de uma piedade beneficente,  retira destes mesmos povos a chance da autonomia, da vida plena e de  um futuro mais digno, intentando transformar estas sociedades em títeres de um "Deus"  que, pela vossa versão, parece não respeitar  a diversidade de suas próprias  manifestações. Atrocidades e injustiças têm sido efetivadas “em nome de Deus” ao longo da história, e sem dúvida, enquanto vossa perspectiva  em  relação aos índios é de que eles simplesmente devam ser "convertidos" ao Cristianismo, não se possibilita o diálogo democrático, respeitoso e  responsável, que promova a proteção e a vitalidade destes povos.
A propósito, não temos nenhuma vergonha, e sim consciência social e  dedicação convicta quanto a nossa atuação indigenista em relação aos  Zo'é, e consideramos positiva sua iniciativa de reproduzir sua carta  para outras pessoas, pois certamente iremos publicá-la, com a réplica,  tão logo tenhamos oportunidade de fazê-lo. Estaremos publicando e  colocando em discussão, também,  o que a New Tribes Mission tem feito entre outros  povos isolados e de recente contato,  como os Ayoreo Totobiegosode, no Paraguai, assim como  o assédio  ideológico e religioso de missionários sobre os Zo'é,  utilizando indígenas “convertidos” da etnia Way-Way  como subterfúgio, o que tem  comprometido não apenas a tranqüilidade social dos Zo'é, como  acrescido sérios danos à saúde desta comunidade indígena.
Atenciosamente,
AMAZOÉ- Apoio Mobilizado ao Povo Zo'é e Outras Etnias-Santarém-PA

amazoe@amazoe.org.br

 

 

DECRETADA FAIXA DE PROTEÇÂO AMBIENTAL INÉDITA!

Publicado no Diário Oficial do Estado (PA) o Decreto 1310-26/09/08, que regulariza faixa de proteção ambiental de 20 km como zonas intangíveis em todo o entorno da Terra Indígena Zo’é, proposta pela Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema –CGII e encaminhada pelo Ministério Público Federal-MPF- Procuradoria Geral da República. De acordo com o texto do decreto (§ 1º), “ As Zonas Intangíveis nas Florestas Estaduais Trombetas e Paru são aquelas onde a natureza permanece intacta, não permitindo quaisquer alterações humanas, representando o mais alto grau de preservação. Essas Zonas são dedicadas à proteção integral dos ecossistemas, dos recursos genéticos e ao monitoramento ambiental.Seu objetivo é a preservação, garantindo a evolução natural dos ecossistemas, sendo proibido o uso direto dos recursos naturais que coloque em risco a preservação da diversidade biológica e a etnia indígena do entorno.” No limite norte, a Terra Indígena Zo’é é atualmente contígua à Estação Ecológica Grão Pará (ESEC), que é a maior unidade de conservação de proteção integral em florestas tropicais no mundo, embora a mineradora multinacional Rio Tinto continue insistindo em pesquisa e exploração mineral por lá.....

O QUE É, E POR QUÊ?
A idéia de uma faixa intangível de proteção ambiental no entorno é a concepção de um “cinturão verde “ ao redor da área indígena, intocável tanto para a ação antrópica externa quanto para a população indígena, interna. Isso permite uma proteção adicional de áreas indispensáveis à reprodução, refúgio e recomposição da fauna, flora e outros recursos naturais, indispensáveis à conservação do ecossistema nativo e extremamente necessárias à manutenção dos moldes tradicionais de usufruto econômico dos Zo’é sobre seu território. É a primeira terra indígena no Brasil que conquista uma figura jurídica de “zona intangível” em seu entorno. Com a regularização da faixa, é pressionar para que Governo Estadual, Governo Federal, Ministério Público e FUNAI façam valer a lei, compondo forças e práticas de fiscalização adequadas para o controle efetivo dessa ampla área de resguardo ambiental...

 

MULTIVACINAÇÃO 100

Também em setembro ocorreu mais uma etapa de multivacinação coletiva- Zo’é, programação desenvolvida em ação conjunta entre Pólo Base de Saúde Indígena –STM e Frente Cuminapanema-CGII. Foram aplicadas as vacinas anti-pólio, rotavírus, hepatite, tetravalente, varicela, influenza, triviral, pneumococo, DTP, febre amarela e dupla,   e o índice de cobertura vacinal chegou aos 100% da população indígena. A cobertura vacinal adequada e sistemática, há anos empreendida entre os Zo’é com rigoroso controle de dosagens, periodicidade e registro em prontuário individual é uma das práticas fundamentais que têm permitido o excelente quadro de saúde coletiva dos Zo’é e a recomposição demográfica, crescimento populacional  e incremento da qualidade de vida desta população indígena!

 

PRODUÇÃO FRANCESA:

A Frente Cuminapanema recebeu visita do fotógrafo Serge Guiraud e dos membros da Jabiru Prod, Jean-Claude e Marie Dequidt . Guiraud foi o primeiro fotógrafo a registrar oficialmente os Zo’é, ainda no início dos anos 90, para o arquivo da FUNAI, e ficou bastante impressionado com a atual vitalidade e coesão cultural dos Zo’é após mais de 20 anos de “contato”. Os Zo’é puderam apreciar antigas imagens de si próprios, levadas pelo fotógrafo, e tiveram oportunidade de refletir e discutir sobre as transformações ocorridas ao longo deste tempo. A proposta dos produtores é promover uma exposição fotográfica comparativa sobre o período imediato do “pós-contato”, registrado em 92 pelo fotógrafo, e os tempo atuais, onde os Zo’é têm vivido uma experiência inédita e bem-sucedida de pós-contato monitorado.
A exposição está prevista para acontecer na França e no Brasil, no Memorial da América Latina (Brasília). O ano de 2009 será comemorado diplomaticamente entre os dois países como “Ano da França no Brasil”, com promoção binacional de eventos artísticos e culturais.



IMPRENSA -  para ver e ler sobre os Zo’é:

“LE MONDE DIPLOMATIQUE - BRASIL”- Ano 2/nª 16-NOVEMBRO 2008;
Nas bancas, o prestigiado jornal francês em sua versão brasileira traz artigos dos antropólogos BETTY MINDLIN, que esteve entre os Zo’é neste ano, e MAURO LEONEL, que avalia a situação fundiária e a expansão agropecuária e mineral na região oeste do Pará:
http://diplomatique.uol.com.br/artigo.php?id=470&PHPSESSID=7344ed5e82e51d5534f731688bd39468

“Revista MARC DE REFERÈNCIES Digital- MRD- (Catalunha-Espanha):
A revista da intelectualidade catalã engajada em questões ambientais editou em 2008 um número especial sobre os Zo’é, com artigos de especialistas e reportagens de ALBERT ABRIL, editor. Na versão digital, vídeo de entrevista com o indigenista JOÃO LOBATO, Chefe da Frente Cuminapanema-CGII, falando sobre as transformações do indigenismo no Brasil e o trabalho entre os Zo’é. Acesse www.referencies.cat

“USHUAIA NATURE”- França -  O ambientalista NICOLAS HULOT esteve com a equipe do programa” Ushuaia” (Television Francaise 1-TF1) produzindo um documentário de belíssimas imagens sobre a Amazônia: os Zo’é ganharam um capítulo especial, chamado “Les Derniers Hommes Libres “( Os Últimos Homens Livres). Pode-se acessar  trechos em vídeo no site do programa: www.ushuaia.com