N O T Í C I A S      Z O’É :

 

NOVEMBRO/DEZEMBRO 2011

POVO ZO'É: SAÚDE AMEAÇADA

Em 30 de outubro de 2011, extinguiu-se o contrato de cobertura de Saúde das 12 etnias indígenas atendidas pelo Distrito Sanitário Especial Indígena-DSEI- Guamá /Tocantins, acordado entre MS/SESAI e SEMSA/Prefeituras locais. Entre estas, inclui-se o povo indígena Zo’é, que nos últimos anos vinha sendo atendido por ações coordenadas e regulares da FUNASA/ Prefeitura de Santarém/SEMSA  e rede voluntária de colaboradores médicos -  aliados à FPEC - Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema, da FUNAI.


Na prática, significou a súbita interrupção de atendimento regular  de cerca de 7.000 indígenas atendidos por este DSEI . No caso Zo’é,  o comprometimento de um  modelo de atenção a saúde diferenciado e eficiente,  inclusive a  não manutenção na área indígena de profissionais de saúde falantes da língua Zo’é, integrantes da antiga equipe. Um risco adicional em uma situação de extrema vulnerabilidade, pois no último ano o quadro coletivo da saúde Zo’é tem apresentado crescente deterioração, decorrente de sucessivas epidemias adquiridas em contatos cada vez mais freqüentes  no entorno de seu território – com exploradores regionais, com outras etnias da região, e em uma nova “base missionária” estabelecida num castanhal dos Campos Gerais do Erepecurú, região próxima ao limite oeste do território indígena.


Desde o dia 31 de outubro, estas comunidades indígenas não contam mais com equipes médicas, dado o término da vigência dos convênios antigos -  visto que um novo sistema ainda não foi implementado.  O Ministério Público Federal /PA ajuizou ação na Justiça Federal de Belém para anular a concorrência que determinou a contratação de uma única entidade -  a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina -  para o atendimento de 12 etnias em um território que passa de 1 milhão e 700 mil hectares. Outras entidades concorrentes foram descredenciadas por não terem um certificado de entidade beneficente.

 

 

JUNHO 2011:

"INDIGENISTA DOS ZO'É" RECEBE A COMENDA MÁXIMA DA CIDADE DE SANTARÉM EM SEUS 350 ANOS

Em cerimônia de abertura das festividades dos 350 anos da histórica cidade de Santarém, Oeste do Pará, entre os 06 agraciados com o mérito máximo da cidade, a Medalha Padre João Felipe Bettendorf -  pré-fundador da cidade (1661) - foi atribuída a honrosa  comenda ao indigenista João Lobato, Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema, instância local de atendimento aos ZO’É,  população indígena de recente contato jurisdicionada à FUNAI através da CGIIRC-Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato. O pólo urbano de apoio aos trabalhos entre os Zo’é tem sido a cidade de Santarém, desde os tempos dos primeiros contatos oficiais com a etnia, ainda nos anos 80. Os demais homenageados foram: Dona Lusia dos Santos Lobato, líder comunitária e artesã de Alter do Chão; o empresário Agostinho Coleta de Couto, presidente da Associação  de Aposentados e Pensionistas de Santarém;  o médico  otorrino Jocivan Pedroso da Silva, coordenador do Programa Sorriso Brasil; o pioneiro empresário Raimundo Pereira de Vasconcelos, o “Raimundo da Rayana” e o saudoso e meritório laboratorista Phebus Canaan Dourado, in memoriam.
Lobato, indigenista na Amazônia há mais de 30 anos, teve por destaque no cerimonial do município sua atuação  "interinstitucional e interdisciplinar” na coletividade santarena, ao longos dos anos estimulando  e agregando  múltiplos parceiros voluntários em prol dos índios Zo’é, entre profissionais liberais locais, instituições alternativas da sociedade civil e órgãos governamentais, como a Prefeitura de Santarém/SEMSA, o DSEI/FUNASA/STM e a Procuradoria da República/MPF-Santarém.  Outra evidência  foi a “intransigente defesa dos direitos indígenas”, consubstanciada no permanente enfrentamento e denúncia de invasores e exploradores que ameaçam a tranqüilidade e segurança dos Zo’é, bem como a denodada busca de qualidade em serviços, tecnologias e especificidade no atendimento à saúde indígena, não descuidando de uma postura de profundo respeito aos parâmetros culturais e sociais internos da sociedade Zo’é.


TRAJETÓRIA INDIGENISTA
Nascido e criado na zona rural da Mata Atlântica mineira, na juventude Lobato desenvolve  trabalho comunitário em associação civil de defesa de populações carentes (UNIBAIRROS) da periferia de Juiz de Fora - MG. Na universidade (Ciências Sociais/UFJF-MG), prontamente envolve-se com a questão indígena, denunciando na imprensa local a subtração abusiva de artefatos culturais dos índios Maxacalí (MG), retirados para “coleções artísticas” acadêmicas. Conquistado pelos índios, em 1981 deixa a universidade e segue para a Amazônia, engajando-se como voluntário na entidade de formação indigenista civil OPAN (MT), atualmente Operação Amazônia Nativa .
Atuou no dia a dia de aldeia por cinco anos junto ao povo Cinta-Larga (Aripuanã-MT), à época, índios de recente contato, enfrentando a gravidade do quadro coletivo de saúde e a crescente e violenta pressão dos garimpos chegando e multiplicando-se no entorno do território indígena. A partir de 1984, convidado pelo sertanista Apoena Meirelles da FUNAI, lança-se sozinho ao trabalho de levantamento em campo para comprovação e defesa de uma etnia indígena isolada no rio Madeirinha (MT), em área já cercada de fazendas. De lá, resgata a índia Rita Kawahíb, deste povo isolado, até então utilizada como escrava doméstica e sexual pelos peões. Apesar das evidências  materiais, o GT da FUNAI não reconhece o território dos Kawahíb, e Lobato assina um aparte indignado de discordância no documento final oficial. O território destes Kawahíb, ou Kawahíwa, posteriormente chamados “Piripkura”, viria a ser reconhecido oficialmente apenas em 2008, certificando a proposta original de Lobato através da Portaria 1.154 de 06/10/2008, da FUNAI, como “área de restrição de uso pela presença de isolados”.
Entre 1984-1986 é convidado como assessor antropológico do PROGRAMA POLONOROESTE/Banco Mundial, referente aos impactos da BR-364 sobre populações indígenas e à presença de índios isolados em áreas projetadas para hidrelétricas em RO, colocando-se terminantemente contra a implantação das mesmas no entorno de áreas de possível presença indígena. Em 1986 participa da coordenação do “Encontro Sobre Índios Isolados e de Contato Recente”, promovido pelo CIMI/OPAN e UFMT, tratando-se da primeira reunião nacional de discussão e reflexão sobre a crítica situação dos povos em isolamento, da qual participaram os principais setores alternativos indígenas e indigenistas de então (UNI, CEDI, CPI, CTI, Universidades et alli ). Em 1986 cria o “Projeto Kawahíb”, pela OPAN/OXFAM, sediado em Humaitá-AM, apoiando aos povos Tupí-Kawahíb da região, Parintintin e Tenharim, como ponte cultural para o reconhecimento dos grupos isolados Kawahíwa. Atua no apoio à saúde e suporte jurídico aos demais povos indígenas da Bacia do Madeira: Torá, Apurinã e Mura-Pirahã, onde permanece até 1991.  Em 1992 vincula-se à FUNAI; atuando com os Erikbaktsa (MT), Arara do Rio Branco (MT) e Nambikwara(RO).
Lotado entre os Zo’é em 1996 pelo então DII-Departamento de Índios Isolados da FUNAI, a situação interna encontrada, caótica, indicava a rápida desagregação social e cultural dos Zo’é, num quadro crítico de saúde coletiva  que a FUNAI empenhava-se  emergencialmente em controlar. Lobato se esmera por uma imersão pessoal na língua Zo’é, o que possibilitou o desenvolvimento de um  longo e denodado trabalho de diálogo e superação com a comunidade. Em 2008, a partir de proposta de Lobato articulada junto à Procuradoria da República/MPF-STM, o Governo do Pará decreta uma faixa de 20 km de proteção adicional em todo o entorno da Terra Indígena Zo’é, inaugurando no Brasil a jurisprudência de “zonas Intangíveis”, “ dedicadas ao mais alto grau de proteção do ecossistema”. A Terra Indígena Zo’é  torna-se a única no país que dispõe deste instrumento, como área de amortecimento e preservação ambiental para proteção de seu ecossistema (Decreto 1310-26/09/08-Governo do Estado do Pará).
Após  quinze anos de trabalho contínuo, com todas as dificuldades da ação em área florestal remota, as pressões externas das frentes de expansão, as necessidades prementes da proteção à saúde coletiva  e as crises internas de uma sociedade minoritária em permanente transformação e descoberta, o trabalho da Frente Cuminapanema tem sido reconhecido nacional e internacionalmente como referência governamental de ação indigenista pioneira de proteção e promoção social entre etnias indígenas de contato recente. A situação de saúde coletiva dos Zo’é é um reconhecido  exemplo de recuperação demográfica e sanitária com manutenção cultural,  apresentando  índices excelentes nos indicativos de natalidade/morbidade/mortalidade, quadro que tem sido meritoriamente buscado e mantido com os esforços contínuos de colaboradores voluntários, instituições de apoio governamental e a equipe da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema-CGIIRC-FUNAI, sob a batuta do indigenista Lobato. Enquanto ativista social governamental, recebeu o prêmio “Superecologia 2004”, da Abril Cultural (Revista “Superinteressante), indicações ao “Rolex Awards” em 2008 (Genebra-Suiça) na categoria “Preservação da Herança Cultural” e indicação ao “Prêmio Chico Mendes” 2010 do MMA (Ministério do Meio Ambiente-Governo do Brasil ), na categoria “Liderança Individual na Amazônia”.

 

 

FUNAI –Portal dos Povos Indígenas - 17-03-11

ÍNDIOS ZO'É TERÃO PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO ETNOAMBIENTAL

Família Zo'é-Vilela-FUNAIFoto Mário Vilela -2009/FUNAI.GOV.BR

A Funai está finalizando um programa de desenvolvimento etnoambiental sustentável para índios de recente contato da etnia Zo'é. O objetivo é fortalecer a promoção de direitos e a proteção física, cultural e territorial daquele povo, com ações educativas voltadas à promoção sociocultural e à proteção territorial, levando em conta a autodeterminação e o direito à informação.
Em fevereiro, representantes do grupo que vive no noroeste do Pará estiveram em Brasília para iniciar contato com o Estado brasileiro. Com base nas demandas apresentadas pelos indígenas, o Programa Zo'é foi estruturado em três eixos: proteção, promoção de direitos e gestão. A antropóloga Dominique Gallois, da USP, e a linguista Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, que estudaram, respectivamente, o modo de vida e a língua Zo'é estão colaborando com a proposta. Segundo o Coordenador-Geral de Índios Isolados e Recém Contatados, Elias Bigio, “o programa deverá iniciar ainda no primeiro semestre de 2011, e a perspectiva é ampliar a parceria com outros profissionais e instituições que atuam junto aos Zo'é”.
Entre as ações previstas estão programas educativos para a população Zo'é, do entorno da Terra Indígena e de municípios da vizinhança, com o objetivo de viabilizar relações de respeito, de acordo com a política para índios recém contatados. Há ainda a possibilidade de engajamento dos Zo'é em atividades de vigilância da própria terra, através de expedições.
O programa destaca ainda o processo de letramento e capacitação dos Zo'é para o uso de tecnologias de registro e continuidade das ações de saúde. A alfabetização e letramento incluem o manejo da leitura escrita e de outras formas de registro, tais como vídeo, GPS, fotografia, mapas e iniciação às primeiras contas.
A saúde é outro tema importante. Entre as ações previstas está o treinamento de jovens Zo'é em saúde preventiva e primeiros socorros. Há uma preocupação também em manter os padrões nutricionais próprios, que têm mantido o povo saudável até os dias de hoje.


Política de proteção - Hoje, no Brasil, há 70 referências de grupos de índios isolados, como são chamados os indígenas que não estabeleceram contatos frequentes ou intensos com segmentos da sociedade nacional. Dessas referências, 29 são confirmadas. Localizados em sua grande maioria na região amazônica, não se sabe ao certo quem são, quantos são e que línguas falam. Para confirmar essas referências, são utilizadas diversas formas de obtenção de informações, entre elas: entrevistas; imagens de satélite e georreferenciamento; observação de vestígios deixados pelos índios; documentação histórica.
Ao identificar esses grupos, a Funai monitora o território para garantir-lhes o direito de se manterem no isolamento, respeitando suas estratégias de sobrevivência física e cultural, segundo seus usos e costumes. A política vale para os povos de recente contato, aqueles que já estabeleceram alguma relação com segmentos da sociedade nacional, mas que têm conhecimento reduzido dos códigos e valores das sociedades majoritárias, como o povo Zo'é.
O direito ao território é uma questão de sobrevivência para esses grupos, tendo em vista sua interdependência com o meio ambiente. Qualquer agressão ambiental poderia colocar em risco a conservação do seu isolamento. Para garantir esse direito, a Funai conta com 12 Frentes de Proteção Etnoambiental, que trabalham exclusivamente com índios isolados e recém contatados. Essas frentes estão localizadas nos estados do Mato Grosso (2), Maranhão (1), Pará (2), Amazonas (3), Acre (1), Rondônia (2), e Roraima (1). As equipes lotadas nessas unidades realizam atividades de pesquisa de campo, levantamentos etno-históricos para dimensionar e identificar o território, além de ações de proteção, vigilância e fiscalização da terra indígena.

História de contato – A Funai teve conhecimento da existência dos Zo'é, no início da década de 1970, durante levantamento dos grupos isolados que estavam na rota da construção da rodovia Perimetral Norte (BR 210). No início da década de 80, missionários da MNTB – Missão Novas Tribos do Brasil, braço nacional da New Tribes Mission americana, passaram a atraí-los com fins evangelizadores, à revelia de autorização da Funai. Em 1989, diante do agravamento da mortalidade na população recém-contatada, o grupo solicitou auxílio do órgão indigenista.
Em 1991, a Funai retirou legalmente a Missão Novas Tribos do território Zo’é, assumindo a assistência exclusiva dessa população. A partir daí, algumas ações começaram a ser realizadas, como interdição imediata do território, posteriormente demarcado como Terra Indígena Zo’é; aprendizado da língua nativa; valorização da estrutura sócio-econômica autônoma dos Zo’é; e ações de promoção à saúde.

Apesar de terem certo contato com não índios desde os anos 1980, o grupo é considerado pela Funai como “recém contatado”, pelo pouco conhecimento que tem dos costumes dos não-índios. Como todo povo indígena de recente contato, os Zo’é são bastante vulneráveis à contaminação e disseminação drástica de quaisquer patologias para as quais não tenham desenvolvido imunidade suficiente. Isto torna os contatos não controlados situações de alto risco e produtores de sérias demandas emergenciais

Zo'é BSB-FUNAIFoto Mário Vilela /FUNAI.GOV.BR

http://www.funai.gov.br/ultimas/noticias/1_semestre_2011/MARCO/un2011_04.html

 

 

Portal Saúde.GOV.BR: 15/02/2011

PADILHA DISCUTE PROTEÇÃO PARA ÍNDIOS DA ETNIA ZO'É

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, recebeu nesta terça-feira (15) oito índios da etnia Zo’é, do norte do Pará. O grupo veio à Brasília solicitar formas de proteção a saúde dessa população. A equipe estava acompanhada do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira, e do coordenador geral de Índios Isolados e Recém Contatados da Funai, Elias Biggio.

Os índios moram no município de Óbidos (PA), próximo a cidade de Santarém (PA), e mantém pouco contato com a sociedade. Durante o encontro, o grupo relatou um recente surto de gripe. A informação preocupou o ministro que, diante disso, solicitou ao secretário especial de Saúde Indígena, Antônio Alves de Souza, a criação de uma barreira de controle para evitar que caso semelhante não ocorra mais na região e em outras no país.

“A meta é para que, até o final do ano, haja a construção de uma política de saúde específica para os índios com recente contato. A idéia é evitar a contaminação por meio da entrada de pessoas não autorizadas”, destacou o ministro.

Embora a Funai procure preservar os índios isolados do convívio com outras sociedades, os próprios Zo'é têm demonstrado interesse em ampliar as relações com a sociedade. Um dos pedidos desses povos era conhecer Brasília.

Quebrando o protocolo, no final da reunião, o ministro convidou o grupo para conhecer a sala do gabinete, onde há uma vista do Congresso Nacional e do Palácio do Itamaraty. Dos sete homens e uma mulher que chegou ontem (14) à capital, seis jamais haviam deixado sua aldeia. Eles permanecem na cidade até a próxima quinta-feira (17).


Por Valéria Amaral e Zeca Moreira, da Agência Saúde – Ascom/MS

Fonte: http://portal.saude.gov.br

 

 

DEZEMBRO 2010:

“Os Zo’é não vivem uma redoma”- o antropólogo Ruben Caixeta opina:         

O texto de Rosa é muito lúcido e esclarecedor sobre a situação atual dos Zo’é. Do ponto de vista antropológico, é uma luz sobre o conceito de nomadismo e sobre o que significa uma sociedade – organizada em torno da caça e da pesca, e da pequena agricultura – ter que, contra o seu próprio movimento interno e suas próprias razões cosmológicas e sociológicas, se deslocar para fora de seu mundo. Não entendo quando dizem que o texto de Rosa é demagógico: ainda que pequeno, no contexto que demanda o espaço da bloguesfera, é uma das melhores análises que já li até o momento sobre o recente acontecimento entre os Zo’é. A situação dos Zo’é, sua procura de contato com o mundo exterior, não poderá ser entendida sem uma análise consistente do ponto de vista antropológico, sem ouvir com atenção os próprios Zo’é. Não é uma simples reportagem de uma equipe de TV que vai trazer qualquer entendimento sobre o caso, o máximo que pode trazer e ampliar, é o preconceito contra esse povo indígena. Pelo que li do texto da Rosa, ela e outros indigenistas que trabalham com os Zo’é não militam para que estes índios fiquem fechados no seu “mundo” (mesmo porque o mundo do povo Tupi e do Povo Karib é um mundo aberto para o exterior, para aquilo que vem de fora), mas, este contato e esta relação com o mundo de fora (sobretudo sabendo que neste mundo de fora, que é sobretudo o nosso, o ocidental, há muita gente malandra, muita gente que só interessa na “alma” ou no “corpo” do índio – veja a longa história da conquista européia, da evangelização, da escravização dos índios; isso começou há mais de quinhentos anos, e, ainda continua), mas este contato deverá ser mediado por um trabalho indigenista e antropológico sério, feito junto com os próprios Zo’é; este contato deles com o exterior hoje em dia não vai ser feito pela força da “palavra” única do cristianismo, ou pela força e pelo poder dos colonos, os tempos, felizmente, são outros, há muita gente, no Brasil e fora daqui, apoiando o trabalho sério que vem sendo feito atualmente com e pelos os Zo’é. Isto tudo não quer dizer que tudo está certo, precisamos refletir criticamente sobre este trabalho, no sentido de melhorá-lo, aperfeiçoá-lo, e isso deve ser feito por aqueles que realmente querem ouvir os Zo’é, e fazer deles os protagonistas deste encontro com o mundo exterior.

Ruben Caixeta de Queiroz é professor de antropologia da UFMG, coordenador dos GT's de identificação e delimitação das T.Is. Trombetas/Mapuera e Nhamundá-Mapuera (povos Hixkaryana, Kaxuyana, Waiwai, Katuena, Mawayana, Xereu,  Tunayana), localizadas no entorno da T.I.Zo’é. É autor, entre outros, dos   livros “Histórias de Mawary”(2009) e “A saga de Ewká: epidemias e evangelização entre os Waiwai", in: WRIGHT, R. (Org.). Transformando os Deuses: os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil, Campinas : Unicamp, 1999. Contraponto publicado em jesocarneiro.blogspot

 

"OS ZO'É NÃO VIVEM NUMA REDOMA":

Resposta da indigenista Rosa Cartagenes ao jornalista Jeso Carneiro, a respeito de reportagem da TV Atalaia, de Oriximiná(PA), divulgada sob o título "Funai Abandona os Índios Zo'é":

"Decidi me pronunciar unicamente porque citada, assim como o AMAZOÉ-Apoio Mobilizado ao Povo Zo’é e Outras Etnias - associação civil a qual coordeno –  de modo descontextualizado e desinformado aqui em sua “esfera”, em postagens anteriores. No entanto, reitero  que minhas considerações são pessoais, enquanto cidadã e indigenista, não representando eventuais posições da FUNAI - órgão oficial com o qual colaboro, mas do qual não faço parte.
Reportando-me à informação oficial, esclareço que o número de membros do povo Zo’é que estiveram recentemente nos Campos Gerais do Erepecurú foi 96 indivíduos, e não 139 – este último “dado”,  divulgado pelos referidos “castanheiros”  envolvidos.
Gostaria de colocar como premissa inicial o fato, antropologicamente bastante estudado, que as sociedades Tupí são por natureza “sociedades andarilhas” - prática social que alguns chamam de “nomadismo”, “perambulação”, “deambulação” entre  vários outros rótulos (rotular é  uma obsessão da nossa sociedade). Tal caminhar constante apresenta vários contextos:  sociais, econômicos,  cosmológicos, mas certamente relacionados ao perfil de auto-sustentação dos povos chamados “caçadores-coletores”. E os Zo’é são caçadores-coletores-agricultores, de cultura Tupí-Guaraní.  Desnecessário discorrer aqui sobre a importância desta auto-sustentação, já que a autonomia produtivo-econômica  de qualquer grupamento humano  é a base de sua independência em muitos aspectos.  Quem conhece ao vivo a eficiência, a tecnologia primorosa e a justiça ecológica de um arco e flecha Tupí jamais questionaria o desnecessário e danoso de uma arma-de-fogo “civilizada” num contexto de vida coletiva auto-sustentável.
Afirmo, alicerçada num convívio de muitos anos, que os Zo’é sempre foram livres em suas andanças, e mesmo  estimulados  a estas:  isto  tem sido fator primordial na recomposição de sua de vitalidade cultural e retomada de suas áreas de ocupação geográfica tradicionais. É em seu livre caminhar e abrir novos caminhos que ocorre a plenitude da vida Zo’é - caçadas, pescarias, namoros, casamentos, alianças , evitações, vida cerimonial. Ao contrário, na época imediatamente após o “contato” promovido pela MNTB (Missão Novas Tribos do Brasil, anos 80), os Zo’é foram progressivamente sedentarizados no entorno da  base da referida Missão, atraídos pelas benesses materiais imediatas ali disponibilizadas - roupas, panelas , facas e objetos afins -  justamente para mantê-los  agregados à influência missionária. Não é uma dedução: é histórico comprovável, e tratava-se de prática política usual de todas as “agências” (inclusive governamentais) que  objetivavam o “contato” com etnias em isolamento.  
Sedentarizados e congregados, “coisa” totalmente fora de seus  padrões tradicionais de ocupação e dispersão  territorial , ocorreu a concentração de incidência malárica, tornando-a endêmica. Não se trata de uma acusação: é  comportamento epidemiológico cientificamente estabelecido  e comprovado em relação à malária e outras endemias. Concentração demográfica é um dos fatores preponderantes para o ciclo de infecção-contágio-propagação de patologias. Adensamento de contato físico e contigüidade geográfica promovem difusão de doenças. Em doenças transmitidas por  vetores (no caso, o carapanã), concentração populacional também atrai concentração vetorial : gente= fonte alimentar do transmissor. E soluções dependem de boas práticas em vigilância sanitária, rigorosas e eficazes, bastante dificultadas num contexto de aldeia e floresta.

O discurso dos Zo’é como “prisioneiros” tem sido tendenciosamente baseado  em perspectivas proselitistas – à medida que religiosos ( de quaisquer credos) são impedidos formalmente pela FUNAI de adentrar a territórios indígenas de povos ou frações consideradas isoladas ou de recente contato. Missionários  repetem exaustivamente na mídia que os Zo’é foram “expostos ao mundo” e “isolados do acesso ao evangelho”. E esse eterno rótulo de “isolados” para os Zo’é é de uma improcedência sociológica abissal: como se alguma sociedade humana ficasse cristalizada em tempos ou geografias... No início de 2010, a FUNAI redimensionou a CGIIRC – Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato, reiterando o reconhecimento público de que as sociedades indígenas, como todas as sociedades humanas, estão sempre e em constante movimento, e as transições e transformações em curso no seio delas não cabem meramente num rótulo de “Isolados”. Há vários anos os Zo’é são reconhecidos juridicamente como “sociedade indígena de contato recente”. E isto é uma superação jurídica fantástica, pois antes da Constituição atual, a única legislação a respeito - o Estatuto do Índio - só “permitia” 03 categorizações para os “índios” (“índio” também é um rótulo, e inventado por nós): “isolados”, “em vias de integração” e “integrados”.
Qualquer pessoa com mínima  sensibilidade social sabe que no Brasil não existe nenhum povo indígena realmente “integrado”, mas existem muitíssimos povos e indivíduos indígenas em processo de franca “desintegração”! “Integração à comunhão nacional” foi um sonho positivista dos tempos do General Rondon, baseado numa perspectiva evolucionista que, pedagogicamente, povos “selvagens” iriam se “civilizando” até tornarem-se bons e pacatos trabalhadores brasileiros. Numa sociedade discriminatória e espoliadora, a única possibilidade de integração efetiva do índio é padronizá-lo nos moldes ocidentais de tal forma que destrua toda sua essência cultural e humana diversa. E entregá-lo às camadas mais desvalidas e vilipendiadas da população, aquelas que as estatísticas estabelecem como “abaixo da linha da pobreza”. Um exemplo cabal são os povos Guaraní (de mesma família lingüístico-cultural que os Zo’é), os quais, mesmo após 500 anos de relacionamento com a sociedade nacional, mesmo vestidos, alfabetizados, “educados” e supostamente “integrados ao mercado de trabalho”, continuam massacrados pela jagunçada do latifúndio, escravizados e sob uma violência de direitos tamanha que têm sido classificados pela Comissão de Direitos Humanos da ONU como “sob ameaça permanente de genocídio”*. Há comunidades Guarani com até 10 igrejas de “seitas evangélicas” diferentes, além da igreja católica, “loteando” a influência religiosa em meio a sua miséria. É o mais alto índice de suicídio proporcional entre todas as populações do planeta – e os suicídios acontecem majoritariamente entre adolescentes e jovens.
Certamente os Zo’é nunca foram impedidos de saírem de seu território: são homens livres! Lembremos, inclusive, que quem inventou que “seu território” dispõe dos  limites físicos ora estabelecidos - no interflúvio dos rios Cuminapanema, Erepecurú e Urucuriana, municípios de Óbidos e Alenquer-  também fomos “nós”, ocidentais, e não eles. Pelo menos desde o séc.XVIII há registros etnográficos de intenso trânsito indígena nos chamados Campos Gerais do Erepecurú.  Os “brancos” se estabeleceram por lá bem depois disto.

O conceito geográfico-cosmológico dos Zo’é a respeito de limites físicos é muito interessante: o mundo tem “bordas”, mas estas bordas se ampliam na medida em que forem conhecidas...É um belíssimo conceito de “universo em expansão” que seria admirado por qualquer físico e  astrônomo  pensante! As sociedades Tupí trazem em si esta maravilhosa concepção humana de desejo e amplitude permanente de conhecimento.
Na última década, sobretudo em função da acelerada ocupação e expansão de modelos econômicos predatórios no noroeste do Pará ( principalmente monocultura da soja e  agropecuária extensiva), os Zo’é têm sido, solidariamente,  aconselhados a não ultrapassarem as “bordas fixas” que inventamos para eles. O motivo é evidente: fora de “seu território”,  ficam muito mais expostos a  inúmeros riscos - do contágio de doenças graves para as quais ainda não desenvolveram imunidade,  à exploração de mercenários e aventureiros que costumam integrar as frentes de expansão em território amazônico: garimpeiros, madeireiros, “gateiros”, extrativistas ilegais, traficantes e, inclusive, fanáticos religiosos – alguns dos quais capazes de qualquer tipo de estratégia ou aliança escusa para propagarem sua “fé”. Tradicionalmente afáveis e cordiais, os Zo’é “normalmente” ( mas isto está mudando) conseguem ser simpáticos com qualquer pessoa que lhes apareça no caminho.

O evento recente dos Zo’é nos Campos Gerais assume um triste contorno não pela distância percorrida ou pelo inusitado quantitativo – sabemos de indivíduos e grupos que já “andaram” bem mais longe. Mas por ser resultante de mais um incidente de manipulação direta da credulidade e “ansiedades” de um povo  pelos interesses anti-indígenas na região. Missionários jamais virão a público dizê-lo, mas desde sua expulsão da T.I. têm  patrocinado  e efetivado diversas invasões ao território Zo’é, sempre com o intuito de aliciá-los e atraí-los para “fora” – onde supostamente poderiam, à margem da lei, “evangelizá-los” à vontade. Para invadirem a T.I., utilizam exploradores regionais envolvidos com todo tipo de ilicitude na região. Nos últimos anos, têm manipulado como pontas-de-lança  indígenas cristianizados de outras etnias do entorno, como os Wai-Wai e os Tiryió, para adentrarem furtivamente aos aldeamentos Zo’é, levando “presentes” ( os de sempre: roupas usadas, panelas, plásticos, “comida de branco” , espingardas.. e inclusive algumas epidemias) e sempre os convidando “para fora”.  Várias denúncias e documentos comprovatórios  a respeito foram ao longo dos últimos anos arrolados junto ao MPF/Procuradoria Geral da República, justamente porque tais “visitas”, totalmente manipuladas, têm trazido aos Zo’é doenças, desequilíbrios políticos internos, estresse social, insegurança e até mesmo mortes. Há muitos anos o MPF acompanha o trabalho junto aos Zo’é, e vários procuradores da república  se fazem presentes, avaliando e avalizando a positiva ação governamental ali desenvolvida.
Infelizmente, tudo o que temos é a palavra dos Zo’é  contando sua versão do evento como “prova testemunhal”. Mas basta assistir aquelas imagens – uma turba de homens, mulheres e crianças famintos, estropiados, assustados, “travestidos” com andrajos de última hora “gentilmente” doados  pelos “castanheiros cineastas”,  claramente induzidos à repetição do remoque “Funai não dá...João não dá”... Quanta manipulação e desrespeito com um povo. Nada da beleza, da serenidade e da vitalidade do dia a dia. “De quebra”, a mediocridade da reportagem da TV Atalaia (retransmissora da Record, claro) repetindo que os Zo’é eram índios “aculturados” porque vestidos. Deplorável. E sabe-se que pelo menos um dos referidos “trabalhadores da castanha” ali presentes é relacionado desde os anos 80 com missionários envolvidos no “contato” dos Zo’é, e já foi processado pelo MPF como invasor de terra indígena e aliciador.
 A história e a sobrevivência da sociedade Zo’é  são questões muito complexas  para se resumirem  em espaços midiáticos de blogsferas ou do sensacionalismo de TVs. A atuação, inédita, que a FUNAI e sua equipe têm desenvolvido ali não é referenciada em “antropólogos de meia-tigela”  ou “jardins antropológicos” de ”índios pobres”: os Zo’é são, ainda, uma sociedade da fartura, da saúde, sem órfãos, sem caciques, sem patrões. Colocar os Zo’é como índios oprimidos , com ou sem roupa, revela total desconhecimento de sua cultura, seu cotidiano  e do trabalho árduo e dedicado de mais de uma década  que devolveu aos Zo’é sua saúde, sua integridade cultural, seu território tradicional, sua vida em plenitude. Como diz “A Palavra”, a boa árvore se conhece por seus bons frutos..pelos frutos os conhecereis. Dispor dos índices de saúde apresentados pelo Dr.Erik  e atestados por todos os profissionais que ali já estiveram  (médicos, sanitaristas, advogados,  jornalistas, ambientalistas, documentaristas; “turistas”, nunca) só demonstra um caminho muito positivo de esperança para um povo que poderia estar condenado ao genocídio (como tantos outros) desde seu virtual “contato”. Os Zo’é não têm um quadro excelente de saúde apenas por disporem de atendimento médico exemplar, mas sobretudo porque têm respeitados seu modo de ser e de viver, seus parâmetros sociais, seu pensamento cosmológico e seu conhecimento ancestral, sua diversidade cultural e humana.  E temos muito a aprender com eles.
Como toda sociedade humana e diversa, os Zo’é  têm seus próprios ritmos, desejos, questionamentos, interpretações   e possibilidades. Atualmente, mais de 75% de sua população tem menos de 25 anos – massa explosiva e “hormonal”, com a ânsia legítima de tudo ver, tudo conhecer, tudo querer. As pressões externas e internas têm sido muitas e crescentes, precipitando mudanças, crises e indecisões coletivas. Isto é previsível, histórico e faz parte das relações humanas e político-sociais. Não existe “redoma”, e os Zo’é estão, e sempre estiveram, em constante transformação. Evidentemente  o órgão indigenista oficial e todos os agentes sociais envolvidos têm de repensar, reelaborar  e inovar permanentemente em suas  ações para relacionamentos interétnicos  mais justos  e profícuos. Este é um processo constante, e como tudo que é humano, dinâmico.
Certamente, muito há a se refletir, analisar e redimensionar. E muito há, ainda, a se proteger. Não se trata de discutir crenças ou reportar acusações, o que é contraproducente. Trata-se da salvaguarda, inclusive física, de uma minoria étnica em clara situação de desvantagem e vulnerabilidade diante da fagocitose de amplos segmentos que ambicionam seus corpos físicos, terras, recursos naturais, patrimônio cultural e até mesmo suas “almas”. Aos Zo’é, o pleno direito de serem Zo’é, e o amparo legal do Estado para que este povo construa seu futuro em segurança,  com um tempo necessário para o desenvolver de sua própria criticidade e seus caminhos possíveis, sem terem de se transmutar em “mais um” na vala comum dos párias sociais.
Que a sociedade paraense  reflita  e se informe um pouco mais sobre as graves ameaças aos últimos povos livres da face da Terra, e ao menos remotamente perceba o privilégio de abrigar (e defender) em seu seio um povo único, belo, e ainda não canibalizado pela padronização global.

Rosa Cartagenes, indigenista, inspetora sanitária (SES-DF), comunicóloga (UFRJ), apóia volutariamente o trabalho da FUNAI junto aos Zo'é desde 1998. É atual coordenadora geral da associação AMAZOÉ- Apoio Mobilizado ao Povo Zo'é e Outras Etnias, e atua na Amazônia como indigenista voluntária há 25 anos (MT, AM, RO e PA). Contraponto veiculado em jesocarneiro.blogspot

 

 

 

Notícias Zo'é anteriores:

www.amazoe. org.br/noticiaszoe2010

 

 

 

 

 

 

 

Para o MPF/PA, “ao se promover o convênio com apenas uma entidade para esta área, os requeridos estão desconsiderando as práticas tradicionais de medicina das comunidades, a diversidade cultural, geográfica e étnica, bem como particularidades regionais da saúde pública.”  No processo, o procurador da República Felício Pontes Jr. também pede a contratação emergencial de profissionais para atender os cerca de 7 mil índios que vivem no território administrado pelo Distrito.

“O bem jurídico que está ameaçado é a vida e a integridade física de etnias inteiras. Logo, cada dia que passa sem que as comunidades recebam assistência adequada pode causar morte, agravamento de condições de risco e ofensa à dignidade de milhares de indígenas.” Segundo o MPF, o  edital visa “o convênio com entidades intermediárias para realizar serviços cujas contratações deveriam ser de caráter efetivo, ou temporário por excepcional interesse público”, conforme registrado na ação civil pública. Além do risco iminente de interrupção nos serviços de saúde e na irregularidade no edital, o MPF/PA chama atenção para outra queixa das lideranças indígenas: de que não puderam influir e participar do processo de contratação. Para o procurador Felício Pontes Jr., o edital de chamamento tem que ser anulado e outro convocado, dessa vez com participação e acompanhamento dos indígenas em todas as etapas.



O processo tramita na 1ª Vara Federal em Belém, com o número 374307220114013900.
Acesse a notícia do MPF/PA a respeito da ação civil pública contra o Ministério da Saúde:


http://noticias.pgr.mpf.gov.br/noticias/noticias-do-site/copy_of_indios-e-minorias/imprimir?&UID=de7fdf7c39a41c3065f76564ecd43ad8&keepThis=true&TB_iframe=true&height=400&width=700

 

 

 

 

 

 

Lobato e Zo'é-Arquivo FPECLobato e um casal Zo'é num dos lagos do Cuminapanema: 15 anos de dedicação e intimidade em uma atuação pioneira - foto Arquivo FPEC

 

 

 

 

 

 

FUNAI –Portal dos Povos Indígenas -15-02-11

MINISTRO DA JUSTIÇA RECEBE ÚLTIMOS POVOS DA AMAZÔNIA A ENTRAR EM “CONTATO EFETIVO”


Indígenas da etnia Zo'é, que estão em Brasília tratando da relação política de seu povo com o Estado brasileiro, foram recebidos pelo Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, na manhã de hoje (15). O grupo do Pará, que até o momento manteve o isolamento, solicitou apoio e compra de equipamentos para atividades de pesca do surubim, apreciado na culinária Zo'é. A perspectiva dos indígenas é de que, assim, possam auxiliar a Funai na fiscalização da Terra Indígena Zo'é, no município de Óbidos/PA. O desafio para os Zo'é é garantir que a Funai seja informada por eles sempre que constatarem a presença ilegal de garimpeiros, missionários ou outras pessoas que possam colocar em risco a política oficial para povos de recente contato.
O ministro José Eduardo Cardozo garantiu o empenho do MJ e da Funai para que se consolide a relação dos indígenas com o Estado e para que sejam garantidos os direitos indígenas, com a participação ativa dos membros das comunidades. “Precisamos da colaboração de vocês para garantir seus direitos. Vocês tem direito que os brancos não entrem na terra levando doenças e coisas ruins para a vida de vocês”, afirmou. O ministro foi presenteado pelo grupo com arcos e flechas característicos da cultura Zo'é e retribuiu com artesanatos da cultura Xinguana. “Gostaria de poder retribuir a visita indo na Terra Indígena”, disse José Eduardo Cardozo.
Na tarde desta terça-feira os indígenas participam de reunião na Funai, com a Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) para desenvolvimento do Programa Zo'é, que deve prever um conjunto de ações voltadas à promoção de direitos e proteção física e cultural. No final do dia os Zo'é seguem para o Ministério da Saúde para audiência com o ministro Alexandre Padilha. A programação do grupo continua na quarta-feira, com visita ao Laboratório de Línguas da UNB, Fundação Darci Ribeiro e TV Universitária.

Zo'é em Brasília/FUNAIFoto Mário Vilela /FUNAI.GOV.BR

A comitiva Zo'é é composta por sete homens e uma mulher. M'Badjá, Ipó, M'Bóy, Sin'hú, Kurú, Namihít, Tor'ken e a índia Padj E'tarãndit estão acompanhados da professora Ana Suely Arruda, que estuda a língua desse povo do grupo linguístico Tupi há mais de 15 anos, e participa de todas as reuniões, fazendo a tradução. Também acompanham o Dr. Erik Leonardo Jennings Simões, da Funasa e o Coordenador da Frente Etnoambiental de Cuminapanema, João Carlos Lobato.

Histórico do Contato
Os Zo'é, inicialmente chamados “Poturu”, tornaram-se conhecidos pela mídia no final dos anos 80 como um dos últimos povos da Amazônia a entrar em “contato efetivo” com a sociedade ocidental. “Zo'é” significa “gente como nós”. Esta autodenominação apenas é utilizada por eles quando surge a necessidade de explicitar sua diferença com relação aos não-índios ou aos povos inimigos. A Funai teve conhecimento da existência do grupo no início da década de 1970, quando ocorreu o levantamento dos grupos isolados que estavam na rota da construção da rodovia Perimetral Norte (BR 210).
No início da década de 80, missionários da MNTB – Missão Novas Tribos do Brasil, braço nacional da New Tribes Mission americana, começaram a atraí-los com fins evangelizadores, à revelia de autorização da Funai. Diante do agravamento da mortalidade na população recém contatada, em 1989, o grupo solicitou auxílio do órgão indigenista. Em 1991, a Funai retirou legalmente a Missão Novas Tribos do território Zo'é, assumindo a assistência exclusiva dessa população. A partir daí, algumas ações começaram a ser realizadas, como interdição imediata do território, posteriormente demarcado como Terra Indígena Zo'é; aprendizado da língua nativa; valorização da estrutura sócio-econômica autônoma dos Zo'é; e ações de promoção à saúde.
O empenho no aprendizado da língua nativa e busca permanente pela valorização da estrutura sócioeconômica autônoma dos Zo'é, permite romper com práticas de assistencialismo que promovem a dependência. Concomitantemente à autonomia produtiva e alimentar, o diálogo em sua própria língua e o profundo respeito às suas formas sociais promovem a autoestima cultural e o reconhecimento coletivo da importância da perpetuação de sua autonomia produtiva e práticas milenares, como o cerne de sua sobrevivência e qualidade de vida, refletindo positivamente na saúde, nos padrões de ocupação territorial, na conservação ambiental e na centralização da forma de vida Zo'é como a essência de sua autonomia e direito étnico.

Cultura
Os índios possuem pele clara, estatura mediana e usam um adorno labial de madeira que mede de 15 a 20 cm por 2,5 cm de diâmetro no caso dos adultos. O adorno é colocado em torno dos 8 anos e chama “rebenpó”. Alguns homens e mulheres usam cabelo comprido amarrado tipo “rabo de cavalo”, enquanto outros mantêm o corte tipo cuia. Os homens usam um estojo peniano feito de palha. As mulheres também usam enfeite labial e uma tiara confeccionada com plumagem de urubu-rei. Ainda na cabeça, elas usam um aro confeccionado de olho de palha preta. Todas as mulheres, inclusive as meninas, usam uma tipóia de algodão. Dormem em redes confeccionadas da casca da castanha e croá, e suas armas são arco e flecha.
Cultura Religiosa
Os Zo´é - como outros povos Tupi - não dão muita importância à localização de seus antepassados longínquos. Tampouco se preocupam em estabelecer um “começo” na história da humanidade. Seu mito de origem descreve a recriação da humanidade por um herói que surge para intermediar, naquele momento, a relação entre grupos e seres distintos e para recolocar “em pé” os Zo´é. Essas narrativas contam os feitos de Nipuhan, que chega do sul e sobrevive ao cataclisma. Na paisagem desolada de uma terra destruída pelo dilúvio e pelo fogo, ele refaz a humanidade, juntando os ossos dos que haviam perecido, “engolidos” pelo dilúvio. Nas narrativas relativas a este episódio, semelhantes a outras tradições Tupi-Guarani, os Zo'é atribuem ao herói criador saberes e poder característicos dos “kirahi” (não índios).
Saúde
Como todo povo indígena de recente contato, os Zo'é são ainda bastante vulneráveis à contaminação e disseminação drástica de quaisquer patologias para as quais não tenham desenvolvido imunidade suficiente. Isto torna os contatos não controlados situações de alto risco e produtores de sérias demandas emergenciais. Em cooperação de instituições não governamentais realizou investimento em infraestrutura de atendimento de saúde na própria TI, com tecnologia em equipamentos, estoque atualizado de medicamentos, disponibilidade de profissional de saúde em tempo em tempo integral e estrutura de telecomunicações, promovendo a saúde indígena de forma holística: física, psicossocial e cultural.
Em janeiro de 2010, foram realizadas cirurgias por videolaparoscopia, na própria área indígena, para a remoção de colecistopatia, mais popularmente conhecida como pedra na vesícula. A necessidade cirúrgica foi inicialmente diagnosticada por ultrassonografias, feitas com equipamento portátil, o que indicou o problema em quatro mulheres Zo'é. O procedimento foi minimamente invasivo, o que permitiu um pós-operatório quase indolor e com pronto restabelecimento, possibilitando liberação dos pacientes em menos de 24 horas. Acredita-se que a alimentação, rica em castanha do Brasil e gordura animal, favoreça o aparecimentos das pedras, com mais frequência em mulheres. A doença, quando agravada, pode levar a óbito pela infecção na vesícula biliar ou obstrução da via biliar principal.

Isolamento
A política de afastamento coletivo desse e de outros povos configurou-se como uma tática de sobrevivência diante da violência que a sociedade ocidental lhes impôs nos processos de ocupação e expansão sobre suas terras ancestrais. A transformação das antigas Frentes de Atração em Frentes de Proteção Etno-ambientais, em 2000, resultou na mudança de diretrizes e conceitos de proteção territorial prévia, resguardo ambiental para segurança física e alimentar e, principalmente, no respeito à opção de não-contato.
Os Zo'é vivem a plenitude de sua cultura, de seus padrões de produção econômica de baixo impacto sobre o ecossistema, o que leva a uma reflexão sobre os aspectos das matrizes culturais nacionais; dos direitos sociais à diversidade; do patrimônio material e imaterial e da responsabilidade do Estado frente à diferença dos povos existentes no território brasileiro.

Fonte: http://www.funai.gov.br/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Zo'é e ministro Padilha-ascom/MS

Foto : Erasmo Salomão/ASCOM/Ministério da Saúde

 

 

 

 

 

 

 

 

 

S.SALGADO-2009Mulher Zo'é limpando o açaí- Sebastião Salgado/2009

 

S.SALGADO/2009Tarpin volta da caça - Sebastião Salgado/2009

 

 

S.SALGADO-2009Sarará e Ipó no fazer das flechas - Sebastião Salgado/2009

 

 

S.SALGADO-2009

Sebastião Salgado: Avó, neta e urubú-rei, 2009

 

S.SALGADO-2009

Refeição em família - Sebastião Salgado/2009

 

 

S.SALGADO-2009

Háy ninando os filhos - Sebastião Salgado/2009

 

 

Seastião Salgado/Zo'é2009

Amamentando o xerimbabo - Sebastião Salgado/2009

 

 

S.SALGADO-2009As asas do gavião-real -Sebastião Salgado 2009

 

 

Fotos gentilmente cedidas para uso cultural pelo autor, Sebastião Salgado,à associação AMAZOÉ. O mestre da fotografia esteve na Terra Indígena Zo'é em 2009, devidamente autorizado pela FUNAI, ocasião na qual pode fotografar e teve a oportunidade de desfrutar do convívio cotidiano e intenso com os Zo'é, em acampamentos de caça e pesca organizados pelo povo.

 

 

IMPRENSA - para ver e ler sobre os Zo’é:

SURVIVAL INTERNATIONAL - A mais afamada organização não governamental internacional vincunlada ao proteção de direitos dos povos indígenas e tribais pelo mundo lançou recentemente sua página eletrônica sobre os Zo'é, no contexto de campanhas em favor dos povos indígenas isolados e de cente contato. Os trabalhos em campo da Survival, autorizados e feitos há dois anos na T.I.Zo'é, leva o texto de Fiona Watson, vídeo de Tobby Marsden e galeria de fotos; confira o original em inglês: http://www.survivalinternational.org/tribes/zoe ; em espanhol: http://www.survival.es/tribos/zoe . Em português, tradução de Rosa Cartagenes na página de notícias gerais do AMAZOÉ: www.amazoe.org.br/noticiasgerais1

 

“LE MONDE DIPLOMATIQUE - BRASIL”- Ano 2/nª 16-NOVEMBRO 2008;
Nas bancas, o prestigiado jornal francês em sua versão brasileira traz artigos dos antropólogos BETTY MINDLIN, que esteve entre os Zo’é neste ano, e MAURO LEONEL, que avalia a situação fundiária e a expansão agropecuária e mineral na região oeste do Pará:
http://diplomatique.uol.com.br/artigo.

 

“Revista MARC DE REFERÈNCIES Digital- MRD- (Catalunha-Espanha):
A revista da intelectualidade catalã engajada em questões ambientais editou em 2008 um número especial sobre os Zo’é, com artigos de especialistas e reportagens de ALBERT ABRIL, editor. Na versão digital, vídeo de entrevista com o indigenista JOÃO LOBATO, Chefe da Frente Cuminapanema-CGII, falando sobre as transformações do indigenismo no Brasil e o trabalho entre os Zo’é. Acesse www.referencies.cat

 

“USHUAIA NATURE”- França -  O ambientalista NICOLAS HULOT esteve com a equipe do programa” Ushuaia” (Television Francaise 1-TF1) produzindo um documentário de belíssimas imagens sobre a Amazônia: os Zo’é ganharam um capítulo especial, chamado “Les Derniers Hommes Libres “( Os Últimos Homens Livres). Pode-se acessar  trechos em vídeo no site do programa: www.ushuaia.com